Como cobrir atos terroristas sem ser envolvido na propaganda de seus autores. A questão divide as redações em todo o mundo democrático Reprodução/Nieman Lab

Como cobrir atos terroristas sem ser envolvido na propaganda de seus autores. A questão divide as redações em todo o mundo democrático

A cada vez mais extensa e eficaz organização de ataques terroristas em fóruns de mídias interativas e o uso dessas plataformas para espalhar o horror, até mesmo ao vivo – como aconteceu via Facebook no recente massacre em Christchurch, na Nova Zelândia –, expuseram de forma ainda mais clara a inoperância (ou a má vontade) das empresas do Vale do Silício em impor limites no que veiculam, assim como também elevaram o volume das vozes que cobram responsabilidade dessas empresas.

A chacina no pacato país da Oceania, assim como a carnificina na escola em Suzano, no interior de São Paulo, trouxe à tona o antigo debate sobre como o jornalismo noticia fatos como esses, com o dever de garantir o equilíbrio entre o direito à informação e o cuidado para não publicar o que dá espaço à propaganda terrorista e, inadvertidamente, se transformar em um vetor de multiplicação do ódio e de falsidades.

No caso da atividade jornalística, a discussão envolve a complexidade de um mundo digital, no qual a tecnologia está ao alcance de quase todos, e a informação e a desinformação convivem (e, muitas vezes, são manipuladas) nos canais disponíveis na internet. Trata-se, mesmo quando indesejáveis, de novos tipos de fontes que não podem ficar de fora da consolidação das pautas do jornalismo, ao lado daquelas que são típicas do mundo real. Não existe uma fórmula pronta para o enfretamento desse desafio, mas é preciso seguir, segundo especialistas, as melhores práticas jornalísticas adaptadas a essa nova realidade, na qual a imprensa está sob ataque, além de sujeita ao mau uso por parte dos extremistas em busca de mais visibilidade aos horrores que praticam e promovem.

Panóptico invertido

Essa intricada relação colocou o jornalismo diante de uma situação que lembra a teoria do jurista e filósofo inglês Jeremy Bentham, que propôs a construção de um modelo de penitenciária considerada por muitos como ideal, o Panóptico, que permitiria a um único vigilante monitorar todos os prisioneiros. 

A comparação é da diretora do Centro Tow para o Jornalismo Digital, da Universidade Columbia, Emily Bell. “Assim como o vigia no centro da prisão circular teórica de Jeremy Bentham, podemos agora observar uma quantidade de atividades humanas na internet. Seja observando os usuários se revelarem nas redes sociais, ou mergulhando nas pegadas digitais que todos deixamos para trás”, diz Emily, em artigo publicado pelo site Columbia Journalism Review. “A quantidade de informações que os jornalistas e outros podem agora ‘ver’ supera o que poderíamos e deveríamos reportar”. Nas redes sociais, diferentemente da penitenciária de Bentham, continua ela, na qual a ousadia dos prisioneiros ficaria limitada, a publicidade das ações nas redes sociais é ampla e extremamente precisa (com a certeza de acertar em cheio qualquer público-alvo). Pior: não serviu para desestimular os maus atores, pelo contrário. “Os capacitou a chocar e radicalizar mais amplamente”.

Diante da forma como foi perpetrado o massacre em Christchurch, afirma a diretora do Centro Tow, os jornalistas, de certa forma, se viram em um lugar conhecido. “Estamos de volta ao ciclo de autoexame em termos de como denunciar atos de terrorismo e aqueles que os cometem”. Ocorre que, na Nova Zelândia, o atirador, que se autodeclarou supremacista branco, realizou um assassinato em massa no âmbito de uma campanha de mídia social, com mensagens sobre suas inspirações, incluindo longo manifesto.

Planejamento viral de tragédia anunciada

Toda a ação foi cuidadosamente articulada nas raízes das plataformas sociais, incluindo as mais flexíveis na moderação e permissivas ao anonimato, como 4chan e 8chan (banidas temporariamente da Nova Zelândia e da Austrália na última quinta-feira, 21), facilitando que, após a veiculação ao vivo da chacina no Facebook, cópias do vídeo circulassem na maior rede social do mundo, no YouTube (do Google), no Twitter, no Reddit e em outros cantos da web, além dos aplicativos de mensagens, entre eles o WhatsApp, do Facebook. 

"Foi uma tragédia projetada com o objetivo de se tornar viral", disse Neal Mohan, diretor de produtos do YouTube, ao jornal The Washington Post. Também foi anunciada: o atirador semeou avisos no Twitter e no 8chan sobre a atrocidade que faria antes de divulgar a violência no Facebook, por longos 17 minutos. As gigantes de tecnologia alegaram que praticamente estavam enxugando gelo – enquanto removiam milhões de uploads, outros tantos eram publicados, fugindo do filtro dos poderosos algoritmos com truques simples, tais como a troca de cor, cortes na duração dos vídeos ou a aplicação de marcas d’água.

Em comunicado, o Facebook disse que frustrou 1,5 milhão de tentativas de upload do vídeo do massacre, dos quais 1,2 milhão foram evitadas. O que passou por seu crivo (a empresa diz que o vídeo ao vivo foi visualizado menos de 200 vezes e mais 3.800 antes de ser retirado do ar) e por outras mídias sociais foi copiado e republicado, em diferentes versões, nas mídias interativas. “Vimos na resposta das plataformas os limites da inteligência artificial (IA) para sufocar o caminho da informação – preocupante, uma vez que Mark Zuckerberg afirmou no passado que vê a IA como um caminho para a moderação de conteúdo”, advertiu Emily Bell.

Ineficácia

Outro fato preocupante é que, mais uma vez, as empresas de tecnologia revelaram seu desprezo por oferecer respostas imediatas a tragédias e a todos os outros problemas e escândalos em que estão envolvidas. Logo depois do ataque, por exemplo, o Facebook disse que nenhum usuário denunciou o vídeo dos disparos na mesquita da Nova Zelândia enquanto as imagens eram transmitidas ao vivo. Isso foi contestado por um repórter da Right Wing Watch, que disse ter sido alertado sobre o vídeo ao vivo e acionou o alarme do Facebook imediatamente.

"Definitivamente, relatei isso, mas não há registro no Facebook. É muito frustrante", disse Jared Holt ao Business Insider. Mais: se as poderosas empresas do Vale do Silício alegaram extrema dificuldade para banir os vídeos replicados, as prestadoras de serviço de internet na Austrália e na Nova Zelândia, tomaram a si a tarefa de bloquear os acessos a endereços da web que compartilhavam imagens do massacre em Christchurch.

Em busca do equilíbrio

Nessa praça pública onde circulam informação e desinformação descontroladas, por vezes incivilizadas, os jornalistas circulam com o dever de tomarem cuidados redobrados no exercício de seus trabalhos. Embora a ambição seja sempre ter o melhor relato possível em situações difíceis, inevitavelmente há um debate sobre onde o limite em termos de cobertura deve ser observado – agora, levando em conta o fato de que a imprensa não controla mais a informação que está disponível, diz Emily Bell.

O Centro Tow, dirigido pela estudiosa, produziu uma série de relatórios em 2016 sobre a interdependência entre terrorismo, mídia e resposta política. “Os repórteres responsáveis devem ter os princípios básicos impressos em seu subconsciente: não reportem fatos até que sejam verificados, não se concentrem no agressor sobre as vítimas, não usem linguagem sensacionalista que possa dar glamour ao terrorista”, destaca Emily.

Silêncio estratégico

A diretora do Centro Tow, a exemplo de outros tantos jornalistas que participam do debate iniciado após o ataque na Nova Zelândia, elogiou a decisão da primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, que prometeu não citar o nome do atirador. “Ele é um terrorista. Um criminoso. Um extremista. Quando eu falar, ele não terá nome. Pode ter procurado notoriedade, mas não lhe daremos nada – nem mesmo seu nome”, disse Jacinda, conforme relatou o jornalista Roberto Dias, da Folha de S.Paulo. O juiz do caso, segundo o secretário de redação do jornal paulista, ordenou que as imagens feitas no tribunal fossem alteradas para não mostrar o rosto do atirador. O argumento é que isso seria necessário para permitir um julgamento equilibrado. Na corte, relatou Dias, o atirador sorriu e encarou os jornalistas. Os defensores dessa medida citam o caso de um massacre semelhante, ocorrido em Utoia, na Noruega, em 2011, quando a publicidade obtida pelo autor (que também tratou de difundir suas ideias pelas redes sociais), contribuíram para que se transformasse uma celebridade cultuada por extremistas de todo o mundo.

A preocupação em conter a divulgação dos atos de ódio não chega a ser uma novidade. Em 2012, depois do tiroteio em Aurora, no Colorado, dois pais montaram uma campanha desafiando a mídia a aderir a uma política de “sem nome, sem foto”. No ano passado, Joan Donovan, pesquisadora do discurso online da Universidade da Califórnia San Diego, e danah boyd [com letras minúsculas em todo o nome], principal pesquisadora na Microsoft Research, sugeriram aos jornalistas a possibilidade de praticarem o “silêncio estratégico” ao considerar questões de amplificação de discurso e ideias online, informou Emily Bell.

A estudiosa comentou que, de acordo com Joan, como o jornalismo é um campo de citações (os comunicadores precisam mostrar evidências de que algo aconteceu), a tentação é vincular-se a fontes ou material de postagem, como manifesto do atirador de Christchurch, mesmo sem contexto. Mas desta vez, reforçou Emily, houve sinais claros após o tiroteio de Christchurch que jornalistas estavam pensando com mais cuidado sobre o tom da cobertura: “Eu não vi, por exemplo, profissionais procurando [ouvir] supremacistas brancos – que eles agora têm em seus contatos – para falar sobre o caso, e isso é para ser elogiado”, destacou Joan. Além disso, segundo ela, houve menos preocupação em fazer associações a sites de extrema-direita.

O silêncio estratégico é um conceito difícil para os jornalistas e tem seus limites, esclarece Emily Bell, pela necessidade de o jornalismo relatar e reverberar a verdade. Meios de comunicação ligados a governos de países com líderes autoritários e islamofóbicos, como Rússia, Hungria e Filipinas, assinalou a diretora do Centro Tow, não deram destaque ao crime da Nova Zelândia e, na maioria dos casos, deixaram de lado ou vagos os detalhes do invasor e seus motivos.

Manipulação dos fatos

Mesmo vocalizadores de pensamento de direita foram cautelosos. Foi o que ocorreu com o apresentador de talk show Ben Shapiro, que pediu aos seus seguidores que ignorassem a identidade e os ideais do atirador, para não espalhar a mensagem de ódio. Mas também ocorreu o contrário: o teórico da conspiração conservador Alex Jones, do Infowars, supostamente banido das redes sociais, ressurgiu. Jones, na verdade, manteve sua emissora pelo menos até o último dia 19, em um canal secundário, Resistance News, no YouTube, e o usou para afirmar que os tiroteios em massa nas duas mesquitas da Nova Zelândia seriam forjados, inclusive mostrando cenas do atentado.

Jones não estava preocupado em evitar a pregação do ódio. Pelo contrário, atacou os muçulmanos, perguntando: “Onde estão os grupos muçulmanos condenando os ataques terroristas islâmicos contra cristãos e outros?” Ele também investiu contra o jornalismo, dizendo que a “mídia comprada e paga” está empurrando uma narrativa norte-americana anti-branca, ignorando a dizimação global dos cristãos em um ritmo recorde. Outro vídeo do Resistance News, de 15 de março, traz o título “O atirador da NZ é um simpatizante comunista de esquerda”, ao lado de imagens dos momentos que levaram ao ataque à primeira mesquita.

Isso tudo é o outro lado da moeda do silêncio estratégico. Vários observadores, diz Emily Bell, alegam que evitar certos detalhes serve para que comentaristas de extrema-direita que postam regularmente comentários islamofóbicos desviem a atenção da desconfortável proximidade dos meandros dementes da supremacia branca para seus próprios sentimentos.

Omissão nas notícias ajuda o extremismo

Há, diz Emily Bell, linhas de estudo que acreditam que o silêncio excessivamente zeloso não ajuda no combate ao terrorismo ou ao extremismo violento. O Bellingcat, por exemplo, um site especializado em relatórios de inteligência de fonte aberta (OSINT), produziu um documento abrangente e contextualizado sobre os motivos e movimentos do assassino de Christchurch antes de realizar os ataques. A peça contextualizou seu uso de quadros de imagens na internet e as referências que ele fez em seus escritos e vídeos.

"Seu manifesto não é perigoso para o leitor médio", disse Robert Evans, da Bellingcat. “As pessoas que serão mais influenciadas pelos detalhes são pessoas que já estão nos cantos escuros da internet.” Evans acha que a falta de cobertura dos terroristas de extrema-direita tornou mais fácil para as plataformas ignorar o conteúdo publicado por esses grupos. “O Estado Islâmico e suas táticas são o modelo dos nacionalistas brancos. O que efetivamente minimizou a presença online deles é a vontade política de fazê-lo”.

Terrorismo estocástico

No Panóptico invertido, onde a informação está prontamente disponível tanto para jornalistas quanto para as demais pessoas, diz Emily Bell, há outras preocupações que os profissionais de imprensa devem estar cientes rotineiramente. “O novo termo é o terrorismo estocástico, que descreve um ato imprevisto de terror cometido por um indivíduo aparentemente aleatório. Onde há uma saturação de retórica inflamatória sobre ideologia ou grupos particulares, segundo a teoria, torna-se estatisticamente provável que algum lobo solitário morda a isca”.

Os terríveis acontecimentos em Christchurch têm as marcas do terrorismo estocástico, impulsionado pela influência de extrema-direita e intermináveis temas islamofóbicos repetidos por políticos proeminentes e elementos da mídia. Para o assassino de Christchurch, como para o terrorista de extrema direita norueguês do massacre de Utoia – citado pelo assassino de Christchurch – o caminho para o terrorismo está próximo do mainstream, e reflete um tipo constante de islamofobia presente em sites de notícias com agendas contra muçulmanas, como o Breitbart e o Daily Mail.

Evans acha que, se a indústria nacionalista branca fosse menos lucrativa para as plataformas sociais, e se os painéis de imagens como o 8Chan fossem levados mais a sério como uma raiz da ameaça terrorista, as muitas pistas e postagens que antecederam o ataque teriam sido capturadas anteriormente. O outro lado do silêncio estratégico é que a ameaça de um tipo diferente de terrorismo é minimizada, e que as plataformas, que nunca agiram para se antecipar a algo que não tenha atraído anteriormente a cobertura, continuam a tratar pontos de vista extremos e violentos como um discurso tolerável.

Se há algo a ser aprendido com os eventos incrivelmente brutais na Nova Zelândia, é que as plataformas, assim como a imprensa, estão em situação muito semelhante, ainda que as gigantes de tecnologia continuem a negar seu papel de mídia, o que acompanha responsabilidades cobradas da imprensa. “Uma coisa que temos que assumir é que as plataformas estão editando e moldando o que vemos”, diz Joan Donovan.  Tudo o que está ali nas plataformas é, de alguma forma, filtrado, até a busca é curadoria, afirma ela. “Pode ser que esse seja o incidente que responsabilize as plataformas”, arrisca Joan.

Jornalistas e tecnólogos, entretanto, afirmam os especialistas, deveriam estar usando todos os incidentes que fundem o uso das mídias sociais e o trabalho da imprensa com resultados devastadores para os cidadãos comuns como uma chance de refletir sobre seu próprio papel e responsabilidade em um ambiente em mudança.

O jornalista Nelson de Sá, da Folha de S.Paulo, ressaltou logo depois do ocorrido na Nova Zelândia que também no jornalismo houve quem tenha retransmitido as imagens. Ele cita o grotesco caso do Daily Mail online, “site do tabloide cujo histórico inclui até apoio ao nazismo, acrescentando um incentivo para seus leitores baixarem o ‘manifesto’ do atirador”. Jornais globais, como o The New York Times, The Washington Post e The Wall Street Journal, do magnata conservador Rupert Murdoch, e até o agregador direitista Drudge Report , continuou o jornalista, optaram por não reproduzir vídeos.

A jornalista Luciana Gurgel, em reportagem especial para o site Portal dos Jornalistas, também destacou como o terrorista da Nova Zelândia aproveitou-se, de certa forma, de alguns veículos de imprensa, dentro do grande esquema midiático montado por ele. “Jornais e canais de TV também tiveram sua cota de recriminações. No Reino Unido, versões online de títulos sensacionalistas como Daily Mail, Daily Mirror e Sun receberam uma enxurrada de reclamações por terem veiculado trechos, posteriormente removidos. No Daily Mail era possível até baixar o vídeo”, escreveu Luciana, que está no Reino Unido. A jornalista conta que Sky News Austrália, de Rupert Murdoch, chegou a ser suspensa na Nova Zelândia. Outros veículos foram criticados por “passar a impressão de humanizar o terrorista”, disse a jornalista. O mesmo ocorreu, segundo ela, em relação aos veículos que optaram por evitar o uso da palavra “terrorista” nos títulos.

Whack-a-mole

Mathew Ingram, editor de digital do site Columbia Journalism Review, também escreveu sobre o massacre na Nova Zelândia, não apenas para discutir as redes sociais, mas também o jornalismo. “O assassino [da Nova Zelândia] levou as coisas a um novo nível e ainda mais perturbador ao transmitir ao vivo a coisa toda no Facebook Live, parte do que parecia ser uma estratégia de mídia coordenada envolvendo vários posts de sua tagarelice, 74 páginas e videoclipes para plataformas sociais como o 8chan, Reddit, Facebook, Twitter e YouTube. Tão rapidamente quanto os vídeos foram deletados pelas plataformas (o que não foi muito rápido em muitos casos), novas cópias foram postadas e compartilhadas, em um terrível jogo de ‘whack-a-mole’ [brinquedo clássico em que o jogador precisa bater em toupeiras que saem a todo momento de buracos].”

Enquanto os vídeos eram espalhados, disse Ingram, jornalistas e especialistas em desinformação e comportamento online debateram uma questão chave nesses incidentes: quanto os jornalistas devem escrever sobre os detalhes dos assassinatos e, em particular, sobre o delírio ideológico do assassino? “Quase todo mundo concordou que postar o vídeo real das mortes estava além do esperado. Informar sobre o manifesto do assassino sobre sua ação era outro assunto”, disse, lembrando que muitos sociólogos da informação online aconselharam os jornalistas a não citarem a mensagem do assassino. Ingram explicou, voltando ao efeito dominó que as redes sociais propagam tão bem:

“O argumento apresentado por esses e outros especialistas é que o ensaio do atirador parece ter sido deliberadamente escrito para gerar o máximo de publicidade possível para suas crenças racistas, inclusive mencionando celebridades da internet (como o criador do YouTube Felix Kjellberg, conhecido como PewDiePie). (...) O risco de publicar esse tipo de coisas, (...) é semelhante ao risco de divulgar suicídios: os detalhes da motivação do assassino podem levar os outros a agirem com crenças extremas, especialmente se eles acham que receberão o mesmo tipo de público e atenção.”

O jornalista Charlie Warzelm, citou Ingram, observou em um artigo no The New York Times que “esse último disparo” parece ser uma consequência totalmente previsível de um mundo movido pela mídia social no qual conteúdos aparentemente inofensivos no 4chan e 8chan e Reddit podem se espalhar instantaneamente e se enraizar, via YouTube e Facebook, até o ponto em que afetam pessoas ingênuas e perturbadas. “Todas as plataformas dizem que querem fazer algo sobre esse tipo de conteúdo, mas em quase todos os casos as intenções são deixadas de lado após o fato, às vezes por horas, e de limparem os vídeos e os links. Apesar da pressão renovada dos governos – incluindo leis contra o discurso do ódio em países como Alemanha e França – [as empresas da web] parecem quase completamente despreparadas e ineficazes”.

A disseminação do ódio, afirmou Ingram, obviamente precisa ser relatada. E isso passa por mostrar quem são os autores, como e que tipo de desinformação leva ao ódio, além de denunciar seu compartilhamento e o processo que torna viral essa ação de propaganda divisiva. “Mas como fazemos isso sem lhes dar mais oxigênio e publicidade?”, pergunta o jornalista, ressaltando não haver resposta fácil para essa indagação.

Chris Anderson, professor da Universidade de Leeds, disse Ingram, salienta a importância de contextualizar as histórias. “Se não olharmos para os detalhes de coisas como o ensaio do assassino de Christchurch, como podemos ajudar as pessoas – incluindo a mídia – a entender de onde vêm esses tipos de assassinos e como eles mudam de inofensivos tópicos do Reddit para atirar em muçulmanos em uma mesquita?

É um problema específico do século 21, disse Ingram. As informações estão em todo lugar instantaneamente, e a mídia não tem mais a função de guardião da informação (“Gatekeeper”) que costumava ter. “Ao mesmo tempo, a imprensa tem a clara responsabilidade de não derramar gasolina em uma onda de racismo que parece estar varrendo o globo. Encontrar uma rota entre essas duas coisas não é uma tarefa simples, mas é algo que se torna mais importante a cada dia”.

Em outro texto, Mathew Ingram se mostrou preocupado com o impacto das mudanças no jornalismo. “Mark Zuckerberg escreveu que deseja reorientar o Facebook em torno de mensagens privadas, criptografadas e efêmeras, em vez de compartilhamento público. Isso pode ter implicações significativas não apenas para os reguladores, que tentam fazer com que o Facebook reprima conteúdo ofensivo e violento, mas também para o futuro de notícias e informações – incluindo desinformação”.

Mais do que nunca, salientou Ingram, Zuckerberg pareceu admitir em seu post que houve retrocessos na ênfase do Facebook no compartilhamento público, incluindo exploração infantil, terrorismo e extorsão. “Ele pode ter sido empurrado para essa constatação pela tempestade de críticas que o Facebook recebeu – não apenas por causa das eleições de 2016, mas também devido ao seu papel na promoção da violência em Mianmar, na Índia e em outros lugares”, sugeriu o jornalista. “Esse novo compromisso com a privacidade, no entanto, vem com compensações, já que um Facebook mais privado é menos sujeito ao escrutínio público – e isso poderia dificultar o rastreamento da desinformação”, advertiu.

Fim ao Facebook Live

Professora de comunicação pública na Newhouse School, Syracuse University, de Nova York, Jennifer Grygiel levanta outro ponto de extrema preocupação em meio à facilidade com a qual é possível espalhar fatos (às vezes narrados com o claro objetivo de manipulação ideológica) de forma instantânea: o vídeo online em uma rede de capacidade de armazenamento de dados cada vez mais poderosa. “Já passou da hora de a empresa [Facebook] dar um passo em frente e cumprir a promessa de seu fundador e CEO Mark Zuckerberg feita há dois anos: 'Continuaremos fazendo tudo o que pudermos para evitar que tragédias como essa aconteçam'”.

Jennifer lembra, em texto no site Nieman Lab, da Nieman Foundation, pertencente Universidade Harvard, que ao saber que o massacre na Nova Zelândia foi transmitido ao vivo no Facebook, imediatamente pensou em um caso emblemático ocorrido em 2017. Robert Godwin Sr., de 74 anos, foi assassinado em uma calçada de Glenville, subúrbio de Cleveland, em Ohio (EUA). O assassino fugiu e, em seguida, postou o vídeo do assassinato no Facebook. “Relatórios iniciais indicaram que o ataque havia sido transmitido no Facebook Live – na época, uma ferramenta relativamente nova da rede social”, disse Jennifer. “O Facebook, mais tarde, esclareceu que o vídeo foi enviado após o evento, mas o incidente chamou a atenção do público para os riscos da violência ao vivo”.

Logo depois, a estudiosa recomendou que as transmissões do Facebook ao vivo fossem submetidas a uma espécie delay programado, pelo menos para os usuários menores de 18 anos. “Dessa forma, os usuários adultos teriam a oportunidade de sinalizar conteúdo impróprio antes que as crianças fossem expostas”, afirmou. A sugestão foi solenemente ignorada pelos executivos da rede social. O Facebook Live, ressaltou a professora, transmitiu assassinatos e outros crimes graves, como agressão sexual, tortura e abuso infantil. “Embora a empresa tenha contratado mais de 3 mil moderadores adicionais de conteúdo, o Facebook não melhorou em manter a violência horrível da transmissão ao vivo sem qualquer filtro ou aviso para os usuários”, lamentou.

Jennifer sustentou que, no debate da regulação e de maiores cuidados com sistemas como o Facebook Live, é importante ressaltar que políticos e agências federais norte-americanas desenvolveram laços profundos com mídias interativas. Alguns, disse, confiaram nas mídias sociais para coletar doações, direcionar os apoiadores com publicidade e ajudá-los a serem eleitos. Depois, continuam a usar as mídias sociais para se comunicar com os apoiadores, na esperança de serem reeleitos.

As agências federais, continuou a professora, também usam as mídias sociais para se comunicar com o público e influenciar as opiniões das pessoas, mesmo violando as leis dos Estados Unidos. “O papel do Facebook como uma ferramenta para ganhar, manter e disseminar o poder político torna os políticos menos propensos a controlá-lo”.

Enquanto os países continuam a debater a regulamentação, disse Jennifer, haverá muitos incidentes mais perigosos e violentos que as pessoas tentarão transmitir ao vivo. “O Facebook deve avaliar o potencial de uso indevido de seus produtos e descontinuá-los se os efeitos forem prejudiciais à sociedade. Agora, peço o fechamento do Facebook Live no interesse da saúde pública e da segurança. Esse recurso só deve ser restaurado se a empresa puder provar ao público – e aos reguladores – que seu design é mais seguro”.

Responsabilidade ética e legal

No Brasil, o tema também de extrema preocupação. “Está mais do que na hora de as plataformas digitais de mídia assumirem suas responsabilidades como meios de comunicação. Quando alguém transmite ao vivo 17 minutos de uma chacina ou distribui esse vídeo em sua base digital deve assumir que é tão responsável pela distribuição de conteúdo quanto uma emissora de TV”, afirmou o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech.  

“Até hoje tem sido muito cômodo para as plataformas se comportarem como veículos na hora de vender publicidade e ostentar métricas de audiência e buscar refúgio na vaga noção de plataforma tecnológica quando se trata de responsabilização legal e regulação como qualquer outro meio”, continuou Rech. “Não se trata de censura, mas de responsabilidade ética e legal a que qualquer meio de distribuição”.

Leia mais em:

https://www.portaldosjornalistas.com.br/atentado-na-nova-zelandia-imprensa-e-canais-digitais-afundaram-no-mesmo-barco%EF%BB%BF/

http://www.niemanlab.org/2019/03/after-new-zealand-is-it-time-for-facebook-live-to-be-shut-down/?utm_source=Daily+Lab+email+list&utm_campaign=b83cd18d9a-dailylabemail3&utm_medium=email&utm_term=0_d68264fd5e-b83cd18d9a-386384393 

https://www.pressgazette.co.uk/britains-top-anti-terror-cop-attacks-newspapers-over-publishing-uncensored-extremist-propaganda/?utm_medium=email&utm_campaign=2019-03-20&utm_source=Press+Gazette 

https://techcrunch.com/2019/03/15/new-zealand-tragedy-social-media-responmse/?utm_medium=TCnewsletter

https://www.theverge.com/2019/3/15/18267424/new-zealand-shooting-youtube-video-reupload-content-id-livestream?eminfo=%7b%22EMAIL%22%3a%22IiE4S1rY9qcKSNA6Z8hX7uBP7PF%2b%2bDFf%22%2c%22BRAND%22%3a%22FO%22%2c%22CONTENT%22%3a%22Newsletter%22%2c%22UID%22%3a%22FO_DTA_391897DD-DAC7-4DA3-BFF6-7F28DD2D2D8F%22%2c%22SUBID%22%3a%2256940546%22%2c%22JOBID%22%3a%22943800%22%2c%22NEWSLETTER%22%3a%22DATA_SHEET%22%2c%22ZIP%22%3a%22%22%2c%22COUNTRY%22%3a%22%22%7d 

https://techcrunch.com/2019/03/17/facebook-new-zealand/?utm_medium=TCnewsletter 

https://www.businessinsider.com/facebook-removed-15-million-videos-of-the-new-zealand-mosque-shootings-in-24-hours-2019-3?nr_email_referer=1&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_content=Tech_select

https://www.nytimes.com/es/2019/03/18/masacre-nueva-zelanda-supremacismo-blanco/?action=click&clickSource=inicio&contentPlacement=2&module=toppers&region=rank&pgtype=Homepage

https://www.recode.net/2019/3/18/18270522/margrethe-vestager-europe-competition-commissioner-recode-decode-kara-swisher-podcast-interview-sxsw

HTTPS://WWW.WIRED.COM/STORY/NEW-ZEALAND-SHOOTING-VIDEO-SOCIAL-MEDIA/?CNDID=899600&CNDID=899600&BXID=MJM5NJGXOTI5NZAXS0&HASHA=59409B55FEB2DE61B03520E5AF04B62E&HASHB=CA654A2D90D225445D8A41213DA50E6C802DCE99&MBID=NL_031519_DAILY_LIST1_P4&SOURCE=DAILY_NEWSLETTER&UTM_BRAND=WIRED&UTM_MAILING=WIRED%20NL%20031519%20 (1) & UTM_MEDIUM = EMAIL & UTM_SOURCE = NL

https://www.recode.net/2019/3/15/18267048/new-zealand-attack-facebook-streaming

https://www.huffpostbrasil.com/entry/facebook-ataque-nova-zelandia_br_5c8c12a2e4b03e83bdc0df2f?utm_hp_ref=br-noticias

https://www.nzherald.co.nz/business/news/article.cfm?c_id=3&objectid=12214363

https://www.cjr.org/the_media_today/christchurch_new_zealand_mosques.php

https://www.nzherald.co.nz/business/news/article.cfm?c_id=3&objectid=12214363

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HTTPS://BR.REUTERS.COM/ARTICLE/INTERNETNEWS/IDBRKCN1QW2MQ-OBRIN

 http://www.slate.fr/story/174918/anders-breivik-utoya-culte-inspiration-terrorisme-ultradroite-supremacisme-blanc?utm_source=Ownpage&_ope=eyJndWlkIjoiNTk0MDliNTVmZWIyZGU2MWIwMzUyMGU1YWYwNGI2MmUifQ%3D