Sede do jornal The Miami Herald, da McClatchy Company Sede do jornal The Miami Herald, da McClatchy Company Reprodução

Gigantes de tecnologia podem contribuir para o financiamento da imprensa, mas patrocínio direto é um risco à independência jornalística

A concorrência da imprensa com Google e Facebook é desigual, com larga vantagem para as empresas de tecnologia. A indústria jornalística luta diariamente para tentar equilibrar o jogo desmedido da publicidade digital. Mas há portas para parcerias, muitas delas abertas pela pressão social por regulação do duopólio online ou até pelo entendimento de que as gigantes da web podem acabar não sobrevivendo sem o jornalismo. Mesmo assim, os publishers precisam manter de molho todos os fios de suas barbas, alerta a diretora do Centro Tow para o Jornalismo Digital, da Universidade Columbia, Emily Bell.

Uma das iniciativas mais recentes é o projeto do Google denominado Local Experiments Project, em parceria com a McClatchy Company, proprietária de vários jornais nos Estados Unidos. O principal objetivo, conta Emily, é incentivar o a criação publicações digitais sustentáveis em cidades norte-americanas com menos de 500 mil habitantes, regiões onde o jornalismo mais sofreu nos últimos anos a partir da queda de anúncios digitais, concentrados nas empresas do Vale do Silício.

“Isso marca uma mudança na rapidez com que o negócio de notícias está sendo absorvido nas franjas das grandes empresas de tecnologia”, avalia a diretora do Centro Tow. “Pela primeira vez, uma grande empresa de tecnologia está trabalhando diretamente com executivos de notícias para criar uma operação de notícias local, que se propõe a financiar”.

Craig Forman, executivo-chefe da McClatchy, descreve o esforço, a ser realizado ao longo de três anos, como uma verdadeira "colaboração" na qual a equipe da empresa jornalística trabalhará com especialistas do Google. Embora a empresa de tecnologia de propriedade da Alphabet “ajude a apoiar financeiramente o esforço”, escreveu Forman em um comunicado de imprensa no blog do Google, “os sites serão 100% controlados pela McClatchy, que manterá o controle editorial exclusivo e a propriedade do conteúdo”. O Google, enfatizou a jornalista, não terá participação ou envolvimento em nenhum esforço editorial ou tomada de decisão.

Emily Bell, entretanto, ressalta que é difícil saber como será ter especialistas do Google colaborando com a equipe da McClatchy sem qualquer contribuição editorial. “Todos que construíram um produto de notícias de sucesso online sabem que a arquitetura técnica, as ferramentas, o software e a análise aplicada ao jornalismo acabam, inevitavelmente, moldando aspectos do conteúdo editorial”, diz. Na realidade, continua ela, este é um dos erros mais comuns nas redações: incapacidade de integrar adequadamente o “produto” à redação ou de levar em conta o ambiente tecnológico em que eles estão publicando.

Apesar de todos os problemas que apresenta e do seu gigantismo que tanta dificuldade causa à imprensa, nenhuma empresa fez mais para financiar e apoiar o jornalismo na última década do que o Google, reconhece Emily. A expansão para os Estados Unidos de iniciativas que envolvem mais de cem milhões de euros em inovações de notícias na Europa, até agora incluiu investimentos de alto perfil no Report for America, e agora na McClatchy, afirma Emily.

Agora, nada vem de graça, e diretora do Centro Tow para o Jornalismo Digital não hesita em questionar: O que o Google quer ao influenciar o que as redações escolhem para desenvolver em suas estruturas, da realidade virtual à voz habilidades, para bibliotecas de fotos? O questionamento tem de ser feito, diz Emily, mas ao mesmo tempo é verdade que o Google tem atuado de forma muito melhor do que alguns de seus concorrentes, principalmente o Facebook, em relação à imprensa. “Isto é em parte porque é mais maduro e lida melhor com as relações com a imprensa (não tentou esconder suas próprias campanhas de influência, por exemplo). E também gasta mais dinheiro, ainda que isso não reduza a dissenção”, afirma e diretora do Centro Tow.

Emily explica que a investida do Google no jornalismo local não é apenas uma questão de ajuda. Quando a empresa lançou o fundo Digital News Initative (DNI) na Europa, conta ela, foi uma resposta direta à pressão dos reguladores da União Europeia. “O dinheiro foi alocado de um orçamento de marketing e representou um exercício de lobby”. Agora, o Google está transferindo seus esforços de financiamento direto para os Estados Unidos, justamente quando começam os primeiros movimentos para as eleições presidenciais de 2020, a regulação das empresas digitais está na agenda como nunca antes e, além disso, afirma Emily, há pelo menos uma candidata séria, Elizabeth Warren, e há muito tempo são uma área de interesse para a outra, a também democrata Amy Klobuchar.

“A rapidez das empresas de tecnologia preocupadas com a estabilidade financeira do jornalismo não é de todo coincidência”, destaca Emily. Facebook, Apple e Google, frisa a estudiosa, fazem coisas que os jornalistas deveriam estar investigando, e não lucrando. O Google negocia com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, e tenta encobrir, o Facebook paga e traumatiza os funcionários que lidam com conteúdo ofensivo na lista negra, a Apple trabalha com regimes que rotineiramente prendem jornalistas e constroem concentração étnica acampamentos. “Todos os três têm estratégias para administrar a imprensa, e publicam muito poucos dados sobre o que acontece em suas plataformas ou qual é o efeito disso, fazendo com que os relatórios de tecnologia sejam uma forma vital de responsabilidade”.

O que há de novo é a aceitação de financiamento do Google e do Facebook em todo o setor, em meio ao financiamento de jornalismo independente em nível local em particular. E há pessoas que ganharam dinheiro com a tecnologia que, às vezes, o utilizam para apoiar o jornalismo; Jeff Bezos foi saudado por sua salvação e ressurreição do The Washington Post; Laurene Powell Jobs apoia e expande o The Atlantic; Craig Newmark (que fundou a Craigslist) financia escolas de jornalismo e pesquisa, incluindo partes da Columbia Journalism Review e o Centro Tow.

Em todas essas operações, afirma Emily, a transparência e o comprometimento com a independência editorial do financiamento possibilitam relacionamentos um tanto confortáveis. Mas quando se trata de interesses corporativos, os jornalistas precisam estar atentos a agendas em conflito com as suas próprias. O apoio da tecnologia ao jornalismo de maneira totalmente independente é possível, por meio de impostos e a expansão da mídia cívica, por exemplo. “Se isso pode ser feito com o sistema direto de patrocínio que o Google está oferecendo permanece altamente improvável”, assinala Emily.

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