Estudo aponta boas práticas para coberturas de massacres na era digital, mas mostra que jornalismo ainda tem a aprender com esse fenômeno Reprodução/HuffPost

Estudo aponta boas práticas para coberturas de massacres na era digital, mas mostra que jornalismo ainda tem a aprender com esse fenômeno

No fim dos anos 1990 a internet estava no começo, e falar em mídias interativas soava como ficção científica. Mas foi ali, em 1999, que os Estados Unidos enfrentaram pela primeira vez o choque da informação global de um massacre extremista, com os efeitos multiplicadores dessa visibilidade. Naquele ano, na escola de Columbine, no Colorado, um brutal ataque deixou 15 mortos (entre eles os dois atiradores) e, desde então, foi citado como inspiração por dezenas de autores de ataques posteriores. Começava ali um mais elevado estágio de desafios para as coberturas jornalísticas de tragédias. Há duas semanas, com a transmissão ao vivo via Facebook e a propagação em massa do vídeo da chacina que matou 50 pessoas na Nova Zelândia, descobriu-se que houve avanços, mas o jornalismo como um todo precisa ainda evoluir muito no relato desses terríveis fatos, afirmam estudiosos da comunicação.

O debate é complexo e ainda não há consenso. Mas há uma linha de estudos que visa oferecer boa práticas aos jornalistas destacados para relatar as sangrentas ações de extremistas. O conceito parte de campanhas como a "No Notoriety" ("Sem Notoriedade"), criada pelo casal Tom e Caren Teves, cujo filho, Alex, foi um dos 12 mortos no tiroteio em um cinema em Aurora, no Colorado, em 2012. Algo semelhante ao Silêncio Estratégico. Dentro desses princípios, o jornalismo ainda está no começo da estrada.

Essas correntes reforçam o que vários estudos identificaram desde Columbine. "Aquela foi a primeira vez em que realmente houve ampla cobertura de um tiroteio. A rede CNN interrompeu a programação diária para cobrir o evento ao vivo", disse Jaclyn Schildkraut, professora de Justiça Criminal da State University of New York, à BBC Brasil. "Tipicamente, a cobertura da mídia é centrada no atirador, em vez de focar nas vítimas ou nos heróis que responderam ao ataque", afirmou a pesquisadora, na mesma entrevista. “Isso recompensa essas pessoas por matar outras pessoas e incentiva outros ataques semelhantes", afirmou a especialista. 

As pesquisas, conta a BBC, analisaram o fenômeno no qual autores de tiroteios buscam alcançar ou superar a fama de atiradores anteriores, matando ainda mais pessoas, no que é chamado de "efeito imitação". A cobertura intensa da mídia sobre os autores, o número de vítimas e a magnitude da tragédia, com termos como "o maior" ou "o pior", acaba colaborando para esse ciclo, no entendimento de alguns especialistas.

Diretrizes

Preocupados com o fenômeno, os pesquisadores em informação pública Jason Baumgartner, Fernando Bermejo, Emily Ndulue, Ethan Zuckerman e Joan Donovan fizeram um detalhado estudo Media Cloud, plataforma de código aberto para análise de mídia desenvolvida pelo Centro de Mídia Cívica do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e pelo Berkman Klein Center da Universidade Harvard. Eles avaliaram 6.337 reportagens sobre o ataque terrorista na Nova Zelândia, publicadas em inglês na Nova Zelândia, Austrália, Canadá, Reino Unido e Estados Unidos.

Cruzando os dados que encontraram com as orientações de campanhas como “No Notoriety”, o grupo de estudiosos sugere aos jornalistas as seguintes práticas: 

1. Não publique o nome do atirador.
2. Não vincule nem publique o nome do fórum no qual atirador publica para promover os ataques.
3. Não vincule ou publique manifestos de terroristas.
4. Não descreva ou detalhe a ideologia do atirador.
5. Não publique ou nomeie memes específicos ligados o extremista e ao atentado.
6. Não se refira ao atirador como um troll (pessoa ou bot que propaga ódio nas mídias sociais).
7. Siga as diretrizes da Associated Press (AP) para o uso do termo "alt-right", grupo de extrema-direita. Mantenha a expressão entre aspas e, quando for o caso, destaque que os adeptos do preconceito, ofensa e perseguição, geralmente por motivação racial, se autodenominam dessa forma.

Mas as diretrizes não foram observadas por muitos veículos, ainda que tenha havido mais conscientização por parte dos jornalistas para evitar dar ao atirador da Nova Zelândia a propaganda que ele tanto queria. A pesquisa revelou que proeminentes agências de mídia dos Estados Unidos e do Reino Unido nomearam o fórum online frequentado pelo atirador, e muitos discutiram ideias expressas no manifesto. Entre as publicações britânicas pesquisadas, 30% delas relataram o nome do atirador.

“Vazio de dados”

No Facebook, os dados são ainda menos animadores. Apesar da alta conformidade com as diretrizes citadas pelo estudo, 45% das histórias mais compartilhadas na rede social incluíam o nome do atirador, enquanto um quarto dos textos mais replicados deu informações que permitiam a discussão online da ideologia do atirados.

Os pesquisadores alertam ainda que os supremacistas brancos aprenderam a 
cunhar frases de diferentes formas promoverem suas ideias, a partir das pesquisas feitas na internet, explorando o que os especialistas chamam de "vazios de dados". Com pouco conteúdo em relação a essas palavras-chave, eles conseguem manipular os algoritmos e elevar a classificação de suas postagens nos motores de busca.

Mau exemplo

O tabloide sensacionalista Daily Mail, que manteve por algum tempo um link em seu site para o manifesto do atirador, violou todas as sete diretrizes propostas. O jornal também apresentava o nome do atirador nas manchetes, trechos publicados no fórum onde ele anunciou o ataque e ainda mostrou fotografias das armas que ele usaria, estampado nomes e frases destinados a promover a sua causa. Outro tabloide, o The Sun, ofereceu cobertura semelhante, incluindo fotos não borradas do atirador e suas armas, e um longo artigo examinando as ideias de seu manifesto.

A edição norte-americana do The Guardian também violou todas as sete diretrizes, e cinco histórias do jornal foram compartilhadas mais de 50 mil vezes cada. A BBC violou seis das sete diretrizes, e suas reportagens mais populares – que continham o nome do atirador e o título de seu manifesto – foram compartilhadas quase 700 mil vezes no Facebook.

Avanços

Mas há também bons resultados. Nos Estados Unidos, apenas 14% dos veículos nomearam o terrorista. Outra boa notícia foi o fato de os veículos terem ignorado e ideia de buscar proeminentes supremacistas brancos para contextualizar a ideologia do atirador.

Ao mesmo tempo várias histórias se concentraram em manifestações de apoio à população muçulmana da Nova Zelância, de motoqueiros servindo como defensores das mesquitas e pessoas vestindo hijabs em solidariedade aos vizinhos muçulmanos. A história mais popular da semana após o tiroteio foi um conjunto de biografias de todas as vítimas do tiroteio, detalhando suas vidas e sua fé. O material foi publicado pelo New Zealand Herald e compartilhado quase 1,4 milhão de vezes no Facebook.

Leia mais em:

https://www.cjr.org/analysis/christchurch-shooting-media-coverage.php?utm_source=Daily+Lab+email+list&utm_campaign=3bb133a5fe-dailylabemail3&utm_medium=email&utm_term=0_d68264fd5e-3bb133a5fe-386384393

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/03/29/nova-zelandia-lembra-vitimas-do-atentado-e-faz-apelo-contra-o-racismo.ghtml

https://www.terra.com.br/noticias/brasil/cidades/massacre-em-escola-de-suzano-destaque-na-midia-e-recompensa-para-atiradores-diz-pesquisadora-americana,86778725e8b01c48d537cde0a5564a84gspdafoi.html