Zuckerberg defende regulação da internet e acena aos publishers, mas não impressiona Reprodução/Time

Zuckerberg defende regulação da internet e acena aos publishers, mas não impressiona

O pedido de Mark Zuckerberg por mais regulamentação dos gigantes da internet e uma nova rodada de promessas generosas, no último sábado (30), segundo relato do jornal Financial Times, foi recebido com ceticismo por especialistas, publishers e investidores, enquanto os legisladores dos Estados Unidos ainda estão quilômetros atrás dos países da Europa no debate de como refrear o poder de grandes grupos tecnológicos. Ao mesmo tempo, as declarações do bilionário e CEO da maior rede social do mundo foram vistas, por muitos, como mais uma tentativa, no âmbito das relações públicas, de evitar o pior para a sua empresa que mergulha cada vez mais fundo na crise de credibilidade iniciada no caso da Cambridge Analytica.

As declarações de Zuckerberg em artigo publicado na sua página pessoal no Facebook e no jornal The Washington Post também podem ser, para muitos, uma tentativa do bilionário de estabelecer condições mais adequadas ao seu negócio mediante a uma regulação nos Estados Unidos, além do cerco que enfrenta na Europa.

A decisão de estabelecer a visão de regulamentação do Facebook, diz o Financial Times, ocorre quando o grupo enfrenta questionamento crescente dos reguladores sobre suas práticas, tamanho e influência de dados, na esteira de escândalos de todos os tipos. Além disso, lembra o jornal, Zuckerberg negocia com a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC, na sigla em inglês) sobre um caso que envolve vazamento e violação de privacidade que poderia resultar em multa multibilionária à companhia.

Em termos mais amplos, continua o Financial Times, cresce a reação entre o público e as autoridades governamentais contra as grandes empresas de tecnologia, impulsionadas por questões de privacidade e antitruste. A possibilidade de regulação do Vale do Silício é considerada uma das poucas áreas em que democratas e republicanos podem procurar cooperar. Há ainda pressão dentro do período pré-eleitoral, sempre mais tenso. Pré-candidata à presidência dos Estados Unidos, a democrata Elizabeth Warren, por exemplo, prometeu desmembrar gigantes da tecnologia em companhias menores. Ela fala abertamente em anular a aquisição do Instagram e do WhatsApp pelo Facebook. 

Lobby e afagos aos publishers

Na tentativa de reverter essa situação, o Facebook aumentou em 2018 os gastos com lobistas nos Estados Unidos, onde a atividade é legalizada, informou o jornal O Estado de S.Paulo. O esforço foi além. Zuckerberg, contou o site Recode, teria comentado com o CEO da Axel Springer, Mathias Döpfner, que quer criar uma seção na sua rede social que seja dedicada a “notícias de alta qualidade” e pagar aos publishers que compartilhem conteúdo no novo espaço. Zuckerberg estaria falando em pagar aos publishers um tipo de taxa de licenciamento.

O sistema, no qual editores humanos estariam envolvidos na escolha das notícias a serem mostradas aos usuários, informou o jornal The Guardian, seria uma ruptura com a abordagem tradicional do Facebook de usar algoritmos para destacar conteúdo. O recurso de notícias seria uma seção separada e executada paralelamente ao atual feed de notícias da rede social.  Zuckerberg, conforme o The Guardian, estimou que entre 10% e 20% da audiência do Facebook estaria interessada na seção proposta. O produto seria semelhante ao Apple News, grande aposta da empresa comandada por Tim Cook, crítico do modelo de negócios do Facebook.

GDPR global

Agora, Zuckerberg sugeriu regulação em quatro áreas que considera fundamentais: conteúdo nocivo, integridade de eleições, privacidade e portabilidade de dados. "Acredito que precisamos de um papel mais ativo de governos e reguladores. Ao atualizar as regras para a internet, podemos preservar o que há de melhor nela – liberdade para as pessoas se expressarem e para empreendedores para construir coisas novas – enquanto a protegemos a sociedade de danos mais amplos", disse. 

Em relação à privacidade, Zuckerberg pediu regras globais espelhadas no GDPR, a lei de proteção de dados da Europa. O GDPR passou valer em maio de 2018 e pode aplicar multa de até 4% receita anual da receita anual ou € 20 milhões, o valor que for maior, empresas que expuserem os dados dos cidadãos do continente. Esse movimento, na interpretação de analistas, pode ser apenas uma antecipação para que o Facebook empresa não tenha de atender regulações diversas que devem ser discutidas e entrar em vigor em diferentes regiões do mundo, relatou o jornal O Estado de S.Paulo. 

No entanto, as sugestões do bilionário não conseguiram conquistar os defensores da privacidade e os políticos, segundo o Financial Times. Jason Kint, diretor executivo da Digital Content Next, associação empresarial dos Estados Unidos para publishers online, disse que as declarações foram como "na maioria das vezes...” um esforço de relações com o público. "Eles (Facebook) devem sair do caminho, pois perderam a confiança do público".

David Cicilline, presidente democrata do subcomitê antitruste da Câmara dos Deputados, escreveu no Twitter: “Mark Zuckerberg não consegue mais fazer as regras. Facebook está sob investigação criminal e civil. Mostrou que não pode se regular. Alguém ainda quer o seu conselho?”

No domingo (31), houve pedidos para o Facebook fornecer mais clareza sobre as propostas de Zuckerberg. Jeffrey Chester, diretor executivo do Center for Digital Democracy, em Washington, pediu que Zuckerberg explicasse melhor o que o Facebook “apoiaria a regulamentação de privacidade dos Estados Unidos, incluindo a regulamentação das práticas de marketing digital” conduzidas por sua empresa. "Esperamos que isso não seja apenas mais um ‘mea culpa’ de Mark, que ele está propenso a emitir quando a empresa enfrenta um sério desafio político", disse.

Antecipação para evitar o pior

David McCabe, do site Axios, avalia que, na prática, Zuckerberg está tentando se antecipar aos esforços globais para regulamentar sua plataforma, propondo suas próprias regras. Ao negociar com legisladores sobre as ideias que lançou no sábado passado, CEO do Facebook tentaria, por exemplo, evitar um desmembramento forçado como ocorreu no passado com gigantes de petróleo e telecomunicações Standard Oil e AT&T.

Kevin Martin vice-presidente de política pública dos Estados Unidos e ex-presidente da Comissão Federal de Comunicações norte-americana, no governo de George W. Bush, disse que ações regulatórias mais drásticas, como a separação do Facebook do WhatsApp e do Instagram não terão tanto efeito no combate à disseminação de conteúdo nocivo, o que sinaliza uma real margem de negociação dentro da estratégia de Zuckerberg

Ainda assim, os formuladores de políticas globais estão reconhecendo cada vez mais a necessidade de regulamentação das plataformas online, particularmente em torno da coleta de dados e da disseminação de conteúdo malicioso. Além disso, a fala de Zuckerberg em defesa da regulação de conteúdo alarmou os conservadores preocupados com a censura do governo.

"Mark não pediu regulamentação governamental nos Estados Unidos e reconhece, valoriza e apoia a proteção contínua da Primeira Emenda", disse Martin. Ele observou que as empresas de internet já coordenam o policiamento de alguns conteúdos nocivos.

O Facebook, entretanto, é contrário aos esforços para limitar as proteções legais a conteúdo contribuído pelos usuários que estão incorporados na seção 230 do Communications Decency Act, que classifica as empresas de internet como plataformas e não como publishers. Martin disse que isso "tem o potencial de realmente inibir e dificultar essa inovação contínua" e que "não resolveria alguns dos problemas" com conteúdo prejudicial, já que as empresas não estariam trabalhando a partir de um conjunto comum de padrões.

Mostrando serviço

Enquanto isso, o Facebook segue ampliando remoções de páginas e conteúdos inadequados em sua plataforma em todo o mundo, provavelmente em busca de dar respostas à ineficácia com qual lidou recentemente com o massacre na Nova Zelândia, transmitido online no Facebook Live. Na Índia, a rede social removeu mais de 650 páginas, grupos e contas com links para o partido de oposição da Índia por "comportamento não autêntico coordenado". A gigante de tecnologia disse que também retirou 15 páginas, grupos e contas postando conteúdo pró-governo tanto no Facebook quanto no Instagram, de acordo com indivíduos associados à empresa de TI Silver Touch. Outras 103 páginas, grupos e contas no Facebook e no Instagram ligados ao exército do Paquistão foram removidos.

O Facebook prometeu ainda que vai explicar aos usuários por que eles estão vendo certos posts em seus feeds de notícias, na tentativa de tornar a plataforma mais fácil de entender. Será uma espécie de guia “Por que estou vendo este post?”, na qual eles podem clicar para ver como os algoritmos do Facebook decidiram que era um post relevante. O site também anunciou uma atualização de suas ferramentas de publicidade, que permitirá aos usuários ver de forma mais transparente como eles foram alvo de um anunciante no site. Ambas as ferramentas estarão acessíveis no menu suspenso no canto superior direito de qualquer postagem ou anúncio no feed de notícias da plataforma de mídia social.

Frente de governos

Em editorial, o Financial Times sintetizou o que representa a nova guinada do Facebook. “Pelo menos, reconheceram que a mídia social se tornou um veículo para a interferência política. Esta é uma reviravolta de sua posição logo após a eleição presidencial de 2016 dos Estados Unidos Algumas de suas sugestões – como a criação de um órgão independente de terceiros para estabelecer padrões sobre o que conta como conteúdo prejudicial – são úteis”, publicou o jornal.

O diário, entretanto, reforçou que, dada a falta de entusiasmo de Zuckerberg em participar de comitês de governo sobre esses assuntos, “o ceticismo sobre a força de sua conversão” é justificado. “O apoio de é bem-vindo, mas não vai longe o suficiente. As empresas da plataforma Big Tech devem fazer mais do que assumir responsabilidade implícita pelo conteúdo que hospedam. O Sr. Zuckerberg e outros devem ser pressionados a seguir com mudanças significativas”.
Uma ideia frequentemente apresentada sobre como garantir uma moderação de conteúdo mais rigorosa, explicitou o jornal, é revogar a Seção 230 do Communications Decency Act. “No entanto, tal movimento teria, provavelmente, consequências negativas. Reclassificar as plataformas como editores pode levar à remoção de muitos conteúdos não corporativos, dada a dificuldade de garantir que cada item não seja difamatório. Isso poderia limitar o aspecto democratizante das mídias sociais”, assinalou o Financial Times.

Uma frente unificada entre governos e grupos pró-regulação, sugeriu o jornal britânico, seria uma forma de garantir que “os titãs da tecnologia” assumam mais responsabilidade pela moderação do conteúdo. “O libertarismo do Vale do Silício já seguiu seu curso: as empresas de mídia social devem trabalhar com outras pessoas para criar um consenso sobre como regular a internet – ou correr o risco de ter regras mais draconianas impostas a elas”.

Leia mais em:

https://www.washingtonpost.com/opinions/mark-zuckerberg-the-internet-needs-new-rules-lets-start-in-these-four-areas/2019/03/29/9e6f0504-521a-11e9-a3f7-78b7525a8d5f_story.html?utm_term=.781533a2ac36

https://www.pressgazette.co.uk/facebook-to-explain-to-its-users-how-algorithm-picked-content-on-their-news-feed/?utm_medium=email&utm_campaign=2019-04-01&utm_source=Press+Gazette+Daily+new+layout

https://www.ft.com/content/69b2fc4c-53d4-11e9-91f9-b6515a54c5b1

https://www.ft.com/content/734a03c6-547a-11e9-91f9-b6515a54c5b1

https://www.recode.net/2019/4/1/18290330/facebook-news-tab-mark-zuckerberg-license-fee-axel-springer-mathias-dopfner

https://www.theguardian.com/technology/2019/apr/01/facebook-mark-zuckerberg-considering-hiring-editors-journalism-pick-quality-news

https://www.fastcompany.com/90327781/facebook-finally-answers-the-perennial-question-about-news-feed-why-am-i-seeing-this?utm_source=postup&utm_medium=email&utm_campaign=Fast%20Company%20Daily&position=10&partner=newsletter&campaign_date=04012019

https://www.lesechos.fr/idees-debats/editos-analyses/le-nouveau-projet-fou-de-facebook-battre-monnaie-1005590#utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=re_redaction-20190401