A postagem dos jornais nas redes sociais que se multiplica em segundos é aquela planejada por meses, diz editora do WP   Adriana Lorete/WAN-IFRA

A postagem dos jornais nas redes sociais que se multiplica em segundos é aquela planejada por meses, diz editora do WP  

No novo ecossistema da comunicação, em que a audiência é cada vez mais digital e apta a acessar informações em tempo real, a concorrência dos publishers engloba tradicionais rivais, mídias interativas, publicações segmentadas e outras tantas iniciativas editoriais que podem aparecer a qualquer momento. Além disso, concorrentes podem e devem ser aliados em determinados projetos, mesmo quando são os principais algozes em outras frentes nas quais atuam jornais e revistas. Enquanto isso, leitores e redação devem ser ouvidos – e compreendidos – de forma permanente. Tudo isso é levado em conta na formulação de projetos especiais do jornal norte-americano The Washington Post voltados a engajar audiência nas redes sociais e aplicativos de mensagem.

Esse trabalho é feito por uma pequena equipe liderada pela jornalista Everdeen Mason, editora de audiência do The Washington Post. O principal objetivo do grupo é afastar o diário da simples prática da distribuição de notícias em todos os canais existentes no meio on-line. Na prática, mesmo quando necessário – e isso ocorre muito com as notícias mais importantes do dia –, não são essas publicações que resultaram em um crescimento continuado de audiência. “Nesse ecossistema é mais importante do que nunca evoluir as estratégias de distribuição”, disse Everdeen, conforme relatou o jornal O Estado de S.Paulo.

O verdadeiro engajamento vem de publicações que respeitam as novas capilaridades da produção e distribuição de notícias, disse Everdeen durante a conferência Digital Media Latam 2019, realizada nesta semana no Rio de Janeiro pela Associação Mundial de Editores de Notícias (WAN-IFRA). Não adianta, enfatizou Everdeen, distribuir jornalismo em todas as plataformas sem ter uma estratégia eficaz por trás desse processo. Pelo contrário, é necessário muito planejamento, o que inclui a pré-produção dos conteúdos que serão postados.

Essa etapa de elaboração pode ser bem longa, em curioso contraste ao frenético ritmo da internet. Foi o que ocorreu no projeto “How to dress for space”. A equipe de Everdeen trocou informações com jornalistas da redação e reuniu especialistas em tecnologia de ponta, design gráfico, moda e jornalismo para o desenvolvimento de imagens digitais das roupas de astronautas da Apollo 11. O projeto deu tão certo depois de distribuído ao público que originou uma exposição no planetário de Chicago com tecnologia de realidade aumentada. “Foi uma ideia que surgiu na redação e foi compartilhada por milhares de pessoas”, enfatizou Everdeen, segundo a WAN-IFRA.

Outra iniciativa com detalhado planejamento é o site The Lily, voltado para jovens mulheres, da geração millennial, que também exigiu muita inovação e ainda o cuidado de observar os hábitos de leitura segmentada de diferentes leitores, infromou o jornal Folha de S.Paulo. A cobertura jornalística do The Washington Post sobre a epidemia de opioides nos Estados Unidos também foi trabalhada pela equipe de Everdeen, que desenvolveu um planejamento especial que prendesse a atenção do público durante um tempo prolongado.

Everdeen contou que a distribuição dos conteúdos que passam pelas etapas de planejamento desenhadas pela sua equipe exige também um árduo trabalho em tempo real. “A equipe escreve, edita, acrescenta algo visual, coloca no Twitter, avalia quem está interessado, se preocupa com a concorrência, e estuda se é preciso ou não colocar imagens e vídeos”, disse, segundo relato da WAN-IFRA. Em outra frente, Everdeen e seus colegas prospectam quais são os novos hábitos e interesses dos leitores. A jornalista deu como exemplo o interesse das pessoas em ter a orientação jornalística para saber a qualidade dos vídeos que podem assistir no YouTube, fugindo dos riscos do algoritmos de recomendação da rede social do Google.

Reinvenção na redação

Para efetivar tudo isso, Everdeen afirmou que a redação teve que se reinventar com estratégias precisas e profundamente estudadas no âmbito das mídias digitais para garantir que a informação chegasse de forma eficiente na audiência, informou a WAN-IFRA. No novo formato, o processo de criação de conteúdos que serão replicados pela equipe Everdeen envolve um período de três ou quatro meses de reuniões com os jornalistas nas redações. As ideias de possíveis produtos ou de projetos que já estão em andamento são avaliadas em detalhes.

Cada ideia, segundo relatou a WAN-IFRA, passa por testes criteriosos para saber se realmente merecem ter um espaço nos canais da empresa. “Será que o leitor realmente quer saber sobre essa história? Como podemos contar isso? De que forma as editorias se encaixam na ideia?” Essas são algumas das perguntas que Everdeen cita ao relatar a rotina da equipe. A formação de uma boa hipótese nessa primeira etapa é uma das maiores preocupações do grupo.

Cada produto construído, ainda de acordo com a WAN-IFFRA, tem seu público específico, a plataforma mais adequada e o meio de comunicar apropriado para ser recebido com sucesso pela audiência. Após a decisão das pautas, a equipe começa a pensar qual é a melhor estratégia de veicular o conteúdo para que ele obtenha o máximo êxito. O jornal dispõe de profissionais de diversas áreas e também faz parceiras com empresas externas, dependendo da demanda de cada produto. 

Outro cuidado da equipe de Everdeen é a criação de conteúdos para diferentes pessoas em qualquer lugar planeta. “Nosso público já não está mais preso por fatores geográficos, podem nos consumir onde quer que estejam”, disse.

Texto editado com informações da ANJ, da WAN-IFRA (reportagem de Luísa Mattos) de O Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo.

Leia mais em:

https://blog.wan-ifra.org/2019/11/13/washington-post-experimentacao-e-criatividade-para-elevar-a-audiencia-ate-a-lua

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/11/competicao-no-jornalismo-e-relacao-entre-amigas-e-rivais-diz-editora-do-washington-post.shtml

https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,tecnologia-ajuda-jornais-a-entenderem-sua-audiencia-diz-editora-do-washington-post,70003088631