Google e Facebook fizeram “chantagem” com especialistas da União Europeia para suavizar regulação sobre desinformação online Reprodução

Google e Facebook fizeram “chantagem” com especialistas da União Europeia para suavizar regulação sobre desinformação online

As duas maiores empresas digitais do mundo, Google e Facebook, pressionaram com chantagem integrantes de um grupo de quase 40 especialistas nomeado em 2018 pela Comissão Europeia na tentativa de suavizar diretrizes da União Europeia sobre desinformação online, segundo reportagem do consórcio de jornalismo Investigate Europe. O trabalho dos especialistas – incluindo conceituados pesquisadores europeus, empresários e ativistas da mídia – passava pelo estudo e recomendações de inciativas específicas contra desinformação em períodos eleitoras. Nesta semana, entre quinta-feira (23) e domingo (26), os eleitores de 28 países do bloco votam para escolher seus representantes no Parlamento Europeu.

Google e Facebook, ainda conforme a reportagem (publicada no site Open Democracy), fizeram especial oposição às propostas que as forçariam a serem mais transparentes sobre seus modelos de negócios. "Fomos chantageados", afirmou Monique Goyens, diretora-geral da Associação Europeia de Consumidores, segundo o Investigate Europe. Outro integrante do grupo disse em anonimato que o vice-presidente de políticas públicas do Facebook, Richard Allan, chegou a fazer uma ameaça explícita: “Se não parássemos de falar sobre ferramentas de concorrência, o Facebook pararia de apoiar projetos jornalísticos e acadêmicos”.

As pressões vieram à tona quando integrantes do grupo de especialistas convocados pela Comissão Europeia sugeriram investigar se a política europeia de concorrência comercial poderia ter um papel na limitação da desinformação. "Queríamos saber se as plataformas estavam abusando de seu poder de mercado", disse a diretora-geral da Associação Europeia de Consumidores. Na época, Allen, que também integrou o grupo, disse que o Facebook estava feliz em contribuir, mas que a empresa seria “controversa” se as sugestões vingassem.

Houve pressão mais sutil, diz o Investigate Europe, por parte de outros integrantes do grupo para houvesse concordância com os interesses de Facebook e Google. Entre elas, sustenta a reportagem, entidades jornalísticas financiadas por empresas de tecnologia.

Em março de 2018, os especialistas reunidos pela Comissão Europeia divulgaram um relatório no qual destacaram medidas contra a desinformação. O relatório concentrou-se em problemas relacionados à informação errônea online, em vez de notícias falsas. Os especialistas deliberadamente evitaram o termo fake news, considerando-o inadequado para refletir os complexos problemas de desinformação, cujo conteúdo também pode combinar informações fictícias com fatos reais.

O documento define a desinformação como informações falsas, imprecisas ou enganosas, desenhadas, apresentadas e promovidas para obter um benefício ou para causar danos intencionalmente. A desinformação, diz o documento, pode colocar em perigo processos e valores democráticos e direcionar especificamente diversos setores, como saúde, ciência, educação e finanças. O texto enfatiza a necessidade de envolver todas as partes interessadas em qualquer ação eventual e recomenda uma abordagem de autorregulação.

O grupo também sugeriu desenvolvimento de ferramentas que capacitam os usuários e os jornalistas a lidar com a desinformação; a proteção à diversidade e à sustentabilidade dos meios de comunicação europeus; e a continuidade das pesquisas sobre os efeitos da desinformação na Europa.

Leia mais em:

https://www.opendemocracy.net/en/facebook-and-google-pressured-eu-experts-soften-fake-news-regulations-say-insiders/

https://www.cjr.org/the_media_today/tech-blackmail-eu-misinformation.php