Jornais da América Latina investem em editorias que aprofundam as questões de gênero e diversidade Reprodução

Jornais da América Latina investem em editorias que aprofundam as questões de gênero e diversidade

As redações dos grandes jornais da América Latina passaram a investir este ano em editorias específicas para os temas relacionados a gênero e diversidade. O jornal O Globo, por exemplo, lançou em março uma plataforma de conteúdo dedicada ao tema, Celina, em homenagem à professora Celina Guimarães Viana, pioneira do voto feminino no Brasil. O espaço criado pelo diário do Rio de Janeiro debate em profundidade os temas ligados a mulheres, mas também questões sobre diversidade. Nesta semana, o diário argentino Clarín anunciou a criação do cargo de editora para esses temas.

No jornal argentino, a jornalista Mariana Iglesias, que atua no Clarín desde 1996, comanda a nova editoria. O trabalho dela, disse o editor geral do diário, Ricardo Kirschbaum, será o de garantir a perspectiva de gênero de modo transversal em toda a produção de redação. “Meu trabalho será o de propor mais conteúdo sobre histórias de mulheres, ampliar os temas, contar conquistas, avanços e lutas”, afirmou Mariana ao site Laboratorio de Periodismo. Outro desafio, disse, é ampliar as fontes de informação femininas, uma vez que ainda é mais frequente na Argentina a consulta a especialistas masculinos.  

A plataforma Celina, de O Globo, por sua vez, publica diariamente no ambiente digital material produzido por todas as editorias e por colunistas do jornal. A edição impressa também traz periodicamente reportagens especiais, sempre identificadas com o selo do projeto.

O novo espaço editorial de O Globo conta com reportagens, artigos, entrevistas, perfis e vídeos sobre direitos, mercado de trabalho, comportamento, expressão cultural, política, educação, saúde e violência. Além disso, há a colaboração de outras mulheres que têm se destacado no debate sobre o tema. 

“O DNA do jornal é o de reportagens aprofundadas, de investigação, de ouvir múltiplas vozes, de expor vários lados de uma questão. Celina tem esse mesmo DNA, afirma a editora executiva Maria Fernanda Delmas. “Vamos debater a situação das mulheres, discutir o que precisa evoluir, e também mostrar boas propostas para a igualdade de gênero”, comentou a jornalista.

No Brasil, uma brasileira é estuprada a cada dez minutos, informa O Globo. O país ocupa a quinta colocação entre os que mais matam mulheres, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Além da violência, levantamento do IBGE mostra que o salário médio pago às mulheres representa 77,5% do rendimento recebido pelos homens. Ao mesmo tempo, as mulheres continuam com pouca voz em fóruns importantes. Apesar de representarem 51,6% da população brasileira, são apenas 15% nas duas Casas Legislativas federais, por exemplo.

“Este é o momento para termos reportagens, dados e reflexões. Para que pensemos como a mulher é tratada e vista pela sociedade sob o ponto de vista da cultura, da mídia, da educação e da política", disse ao jornal O Globo Sandra Unbehaum, socióloga, doutora em educação e pesquisadora de gênero da Fundação Carlos Chagas.  Para a promotora de Justiça especializada em Direito das Mulheres Gabriela Manssur, o Brasil precisa tratar a causa da mulher como uma prioridade. “A violência aumentou, e o machismo cultural está mais forte. Mas as mulheres não vão voltar para o lugar de onde vieram, não vão abrir mão de espaço”.

Os espaços editoriais de debate aos temas relacionados a gênero são uma tendência internacional. O jornal The New York Times, por exemplo, criou a editoria de gênero em janeiro de 2018. Atualmente, a jornalista Jessica Bennet ocupa a função.

Leia mais em:

https://oglobo.globo.com/celina/o-globo-lanca-celina-uma-plataforma-sobre-mulheres-diversidade-23506999

https://www.laboratoriodeperiodismo.org/mariana-iglesias-clarin/