Criptomoeda do Facebook é estratégia para driblar regulação e manter poder, diz teórico sobre a relação entre política e tecnologia Reprodução

Criptomoeda do Facebook é estratégia para driblar regulação e manter poder, diz teórico sobre a relação entre política e tecnologia

O projeto do Facebook de criar sua própria criptomoeda, a libra, é uma estratégia para reduzir o impacto de medidas regulatórias que neste momento parecem inevitáveis, fugir do desmembramento da companhia e abrir uma alternativa para as receitas que hoje vem da publicidade digital, mantendo e até ampliando o seu gigantesco poder. A análise é de Evgeny Morozov, doutor pela Universidade de Harvard e um dos principais especialistas globais sobre a relação entre política e tecnologia.

“Embora não pareça à primeira vista, o Facebook está seguindo uma estratégia arriscada, mas racional, com uma inclinação dupla”, afirmou Morozov em artigo publicado pelos jornais The Guardian e El País. “Por um lado, a empresa precisa desesperadamente diversificar seus negócios além da publicidade. Por outro, quer antecipar tudo o que puder às duras medidas regulatórias que provavelmente surgirão no final do ano, quando a campanha presidencial dos Estados Unidos estiver em pleno andamento”.

Ao mesmo tempo, disse Morozov, o Facebook parece ter percebido que sua melhor arma é usar “o mesmo tipo de populismo” que permitiu a outros gigantes do Vale do Silício – como Uber e Airbnb – estabelecer a mobilização de seus usuários em suas campanhas contra movimentos regulatórios. “Ao posicionar sua empresa como una força rebelde diante de burocratas medíocres e companhias letárgicas estabelecidas, os estrategistas do Facebook tratam de convencer o público de que sua organização, a força emancipatória da disrupção universal, é vítima de uma conspiração mundial de políticos clientelistas e concorrentes preguiçosos”, escreveu.

Ao anunciar a libra, continua Morozov, o Facebook também está reconhecendo, ainda que sutilmente, que seu modelo de negócios vai mudar. Neste caso, a aposta de longo prazo do Facebook é a de que uma economia digital na qual dados e serviços são completamente mercantilizados pode ser tão lucrativa quanto aquela em que os imperativos da publicidade ajudam a manter esses dados aparentemente não-mercantis. “Sim, o Facebook precisaria pagar algo para seus usuários – mas, por sua vez, também seria capaz de cobrar por seus serviços”, disse.

Morozov enfatizou que o movimento ensaiado pelo Facebook aprofundaria a lógica do oligopólio exercido pelas grandes empresas do Vale do Silício. “Enquanto continuarem a comercializar dados – e enquanto os dados permanecerem vitais para a democracia e a economia – essas empresas exercerão uma influência desproporcional e indevida nas decisões que devem ser tomadas nos parlamentos, e não nos mercados”, escreveu. “Um modelo de negócios, por mais lucrativo que seja, nunca é um alicerce estável para uma democracia sólida. Para isso, temos as constituições”, alertou.

Leia mais em:

https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/jun/21/facebooks-plan-to-break-the-global-financial-system

https://elpais.com/elpais/2019/06/24/ideas/1561392683_740991.html