Governo da França age para intimidar o jornalismo investigativo, alertam jornalistas e entidades Reprodução/Reuters

Governo da França age para intimidar o jornalismo investigativo, alertam jornalistas e entidades

Jornalistas franceses e entidades de defesa da liberdade de imprensa alertam para o que consideram uma tentativa do governo do presidente da França, Emmanuel Macron, de impedir o exercício do jornalismo investigativo. Nos últimos três meses, segundo a Deutsche Welle, os serviços secretos franceses interrogaram oito profissionais de várias publicações.

"O fato de os serviços secretos interrogarem jornalistas é um problema, mas se torna um grande problema quando muitos estão sendo interrogados em tão pouco tempo", disse Pauline Ades-Mevel, porta-voz da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) em Paris, conforme relato da Deutsche Welle.

Os processos judiciais, de acordo com a RSF, tira dos jornalistas tempo e recursos que eles podem dedicar a outras investigações, além de criar um clima de terror entre os profissionais de comunicação. O jornalista investigativo Mathias Destal, por exemplo, correu o risco de pegar cinco anos de prisão e ter que pagar uma multa de até € 75 mil euros (R$ 325 mil reais) depois de ter revelado em uma reportagem no site Disclose a presença de tanques franceses usados contra civis no Iêmen, o que seria de conhecimento do governo francês. A gestão de Macron processou o jornalista alegando que ele revelou segredos de Estado, uma vez que os relatos são baseados em documentos secretos.

"Como jornalista, normalmente se é processado por difamação perante um tribunal especial. Mas, neste caso, os investigadores não parecem questionar a veracidade do que escrevemos. E a investigação não é conduzida por juízes independentes, mas pelo Promotor Público que está, pelo menos formalmente, sob a autoridade do Ministério da Justiça", ressaltou Destal em entrevista à Deutsche Welle.

A ação do governo, segundo a RSF, também afugenta potenciais fontes e tem um efeito de intimidação sobre outros jornalistas investigativos: "Eles pensarão duas vezes antes de investigar certas histórias", afirmou Pauline.

A França está caminhando para trás em relação à liberdade de imprensa, destacou Jean-Marie Charon, especialista em mídia e pesquisador da Escola de Ciências Sociais (Ehess). "Foram introduzidas algumas leis ao longo dos últimos anos que fortalecem o arsenal na luta contra o terrorismo e também protegem os segredos comerciais. Essas leis restringem cada vez mais a forma como os jornalistas podem trabalhar", criticou Charon.

O pesquisador acrescentou ainda que os jornalistas estiveram na mira das autoridades durante os recentes protestos dos "coletes amarelos", manifestações que foram inicialmente desencadeadas por um novo imposto de combustível e depois se transformaram numa revolta contra a elite política e o governo Macron.

"A polícia espancou jornalistas ou confiscou ou danificou seu material em 105 casos. Tudo isso – as acusações, as novas leis e a repressão aos jornalistas – leva a crer que há temas que os jornalistas não devem cobrir", disse Charon.

"Macron parece acreditar que a imprensa precisa ser mantida sob controle. Em vários pontos, ele se apresenta um pouco como sabe-tudo, explicando aos jornalistas como devem fazer seu trabalho e dizendo que a mídia está noticiando muitas coisas, mas não as importantes", comentou o especialista em mídia.

Raphael Gauvain, parlamentar do partido de Macron, defendeu o governo da França. "Nós não estamos, de forma alguma, tentando amordaçar a imprensa. É completamente normal conduzir investigações quando segredos de Estado são revelados. Os serviços secretos realizaram o interrogatório, sim, mas eles estão atendendo a uma solicitação do promotor e não do ministro da Justiça."

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