Facebook diz querer estar mais próximo do jornalismo, mas resiste a mudar seu modelo de negócio Reprodução/AP/The New York Times

Facebook diz querer estar mais próximo do jornalismo, mas resiste a mudar seu modelo de negócio

A decisão do Facebook de contratar um pequeno grupo de jornalistas para selecionar os principais tópicos que serão vistos em uma nova seção dedicada a conteúdo noticioso é, segundo observadores, uma tentativa da rede social de se aproximar do jornalismo e, com isso, resgatar sua credibilidade. Mas a futura área, batizada de News Tab, reúne características que, de acordo com analistas, podem fazer dela apenas mais uma isca do Facebook para garantir engajamento dos publishers em um negócio que, no fundo, mantém o cenário no qual a indústria jornalística tem sido sugada pelas mídias interativas.

Ao contrário dos contratados independentes que trabalharam no extinto módulo Trending Topics ou que moderaram o conteúdo do Feed de Notícias da rede social, relata o site Digiday, os jornalistas contratados agora serão funcionários da empresa em tempo integral. Uma fonte dentro do Facebook disse que esses profissionais terão a opção de incluir na seção conteúdos comprados pela rede social de organizações de notícia, mas não serão obrigados a isso.

No começo de agosto, o jornal The Wall Street Journal informou que a empresa de Mark Zuckerberg estaria disposta a pagar até US$ 3 milhões anuais em troca dos direitos de exibir conteúdos de publishers na nova seção de notícias que planeja lançar neste ano ou no começo do ano que vem. Caberá à equipe de jornalistas do Facebook, segundo relato do Business Insider, a escolha (curadoria) de notícias de última hora, enquanto os demais textos serão impulsionados pelos hábitos dos usuários registrados pelos algoritmos, como páginas seguidas e notícias curtidas ou compartilhadas.

Na prática, o modelo do News Tab deixa o Facebook mais eficiente na recomendação e distribuição de notícias, mantendo em parte a atual lógica de seu negócio, que não remunera os detentores dos direitos autorais. Também não é certo que os milhões de dólares eventualmente oferecidos para o licenciamento da produção de notícias compensem os efeitos colaterais desse tipo de acordo, que afasta os leitores do contato direto com suas marcas jornalísticas preferidas.

“Nosso objetivo com a News Tab é fornecer uma experiência personalizada e altamente relevante para as pessoas”, defendeu Campbell Brown, chefe de parcerias de notícias para o Facebook, segundo o The New York Times. “Para começar, para a seção de notícias principais, vamos reunir um time de jornalistas que darão aos usuários a certeza de destacar as principais histórias”, disse.  

Passado nada animador

O anúncio ocorre cerca de um ano após o Facebook fechar o Trending Topics, um recurso apenas para computadores de mesa (desktops) que mostrava aos usuários tópicos populares e discutidos em toda a rede social com base em algoritmos. Antes de ser desligado, o recurso foi criticado por propagar desinformação, teorias da conspiração, notícias tendenciosas do ponto de vista político e violento extremismo.

Quando o Trending Topics originalmente estreou, em 2014, foi gerenciado por uma equipe de jornalistas, que logo passou a enfrentar ataques de grupos conservadores, que acusavam o Facebook de censurá-los. O Facebook demitiu os jornalistas e estabeleceu um sistema automatizado.

Em 2015, o Facebook criou o Instant Articles, que permitia aos publishers a postagem direta de notícia na plataforma do Facebook. O projeto foi um desastre, com baixa remuneração aos publishers e excessivo controle dos anúncios e dos dados de navegação por parte da empresa do Vale do Silício.

Mais à frente o Facebook promoveu uma alteração no Feed de Notícias que prejudicou as organizações jornalísticas. Desde o começo do ano passado, muitos publishers perderam enormes quantidades de tráfego depois que a rede social decidiu mostrar aos usuários mais postagens de usuários e menos artigos de notícias.

Recentemente a diretora do Centro Tow para o Jornalismo Digital, da Universidade Columbia, Emily Bell, avaliou a decisão do Facebook de pagar a publishers para distribuir notícias em nova seção como um indicativo de que a rede social parece disposta a se responsabilizar pela curadoria ativa – que envolve edição – de conteúdos. Para ela, isso pode representar uma alteração significativa na estratégia de negócios do Facebook em um momento no qual as organizações de notícias olham com grande ceticismo para as ofertas da empresa de Mark Zuckerberg.

Emily afirma que não é possível afirmar no momento se as organizações noticiosas serão capazes de resistir à oferta do Facebook, mas é certo que nunca estiveram tão desconfiadas quanto agora. “Na última rodada de pesquisas do Centro Tow sobre a relação entre plataformas e editores, que será lançada em poucas semanas, nossos pesquisadores descobriram que um catálogo de iniciativas fracassadas deixou os editores mais cautelosos e sofisticados em suas ideias sobre plataformas".

Leia mais em:

https://digiday.com/media/facebook-tries-hiring-journalists-staff-news-tab/

https://www.theverge.com/2019/8/20/20813833/facebook-hires-journalists-news-tab-publishers-fake-news-bias-top-stories

https://www.axios.com/facebook-conservative-bias-audit-results-1de997b4-7192-4546-a452-b90ded43a968.html

https://www.businessinsider.com/facebook-will-hire-journalists-to-run-its-news-section-2019-8

https://www.niemanlab.org/2019/08/facebook-is-trying-again-with-journalists-for-curating-its-news-content/?utm_source=Daily+Lab+email+list&utm_campaign=b086206f88-dailylabemail3&utm_medium = email & utm_term = 0_d68264fd5e-b086206f88-386384393

https://www.lanacion.com.ar/tecnologia/un-equipo-periodistas-se-encargara-editar-nueva-nid2279293

https://www.axios.com/facebook-news-tab-journalist-hires-4c6427c0-e33c-4c28-95a1-9bc0bb3fb422.html

https://fortune.com/2019/08/20/facebook-hiring-journalists-news-tab-debut/