A menos de um ano das eleições municipais, 31% dos brasileiros não contam com noticiário local qualificado Reprodução/Projor

A menos de um ano das eleições municipais, 31% dos brasileiros não contam com noticiário local qualificado

Quase 65 milhões de brasileiros (31% da população) ingressam em 2020, ano marcado por eleições municipais, sem ou com muito pouca produção jornalística local. É o que mostra a mais recente edição do Atlas da Notícia, levantamento anual organizado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor). Somada ao fenômeno da desinformação digital, a “desertificação de notícias” às vésperas do período de escolha de prefeitos e vereadores projeta um cenário perigoso, bem ao gosto daqueles que espalham notícias falsas nas redes sociais.

A pesquisa revela que a maioria dos municípios brasileiros (62,6%, onde vivem 37,4 milhões de pessoas) não possui nenhuma organização de notícias locais – site, jornal ou emissora rádio e TV. Essas cidades estão classificadas como “desertos de notícias”. Outros 19,2% das cidades do Brasil são “quase desertos”, com apenas um ou dois veículos jornalísticos. Nessas localidades, a população total é de 27,5 milhões de brasileiros.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o analista e consultor americano Ken Doctor, especialista em jornalismo local do Nieman Lab (Harvard), disse temer pelo período eleitoral brasileiro de 2020. Segundo ele, esses "quase desertos" indicam a reprodução de um fenômeno também observado nos Estados Unidos. São, de acordo com o especialista, "jornais fantasmas", veículos locais que reproduzem noticiário de agências nacionais e internacionais e "quase esterilizados de informação da cidade”.

Doctor disse ainda que as “forças da desinformação entendem muito bem que as crateras abertas” na imprensa ampliam suas oportunidades de estrago.  “O jornalismo, a reportagem factual produzida em escala e pela qual os leitores pagam, é o único antídoto", afirmou.

Desinformação nas redes sociais

O coordenador da pesquisa, o jornalista Sérgio Lüdtke, confirmou a preocupação em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo. O jornalista disse que, apesar de o cenário de “desertificação” não ser muito diferente dos anos anteriores, a consequência da falta de cobertura jornalística pode ser ampliada pelo fenômeno da desinformação. “Nas eleições passadas, de 2016, não se colocava a atenção que se coloca agora sobre desinformação”, afirmou Lüdtke. “Isso se ampliou muito depois do impeachment. Agora temos grupos que abastecem as redes com conteúdo malicioso e as pessoas continuam muito suscetíveis a esse tipo de informação.”

Lüdtke assinalou que, sem veículos jornalísticos, a informação local continua sendo compartilhada por outros meios, sem mediação. “A desinformação é um mal da sociedade que precisa ser tratado. Poderíamos pensar em programas de fomento para cobrir essas populações que moram em desertos”, disse o jornalista, que também é editor-chefe do Projeto Comprova, coalizão para checar boatos sobre políticas públicas formada por 24 veículos. "Os grupos vão bombardear. "Já na eleição presidencial, mais gente usou Facebook e WhatsApp do que votou", enfatizou Lüdtke em outra entrevista, ao jornal Folha de S.Paulo.

Transição

O Atlas da Notícia também mapeou o fechamento de veículos brasileiros. Foram 331 desde 2003, a maioria de impressos (195, ou 60%). “Há uma transição lenta do impresso para o digital. Alguns veículos importantes encerraram suas edições impressas recentemente”, observou Lüdtke.

A pesquisa contabilizou mais de 13,7 mil empresas jornalísticas no País. Maior parte deles era rádios (35,2%), seguidos de impressos (29,4%), veículos online (25,5%) e televisões (9,7%).

Para levantar esses números, o projeto contou com o apoio de 193 colaboradores de todas as regiões brasileiras, além de 22 escolas de jornalismo, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). O financiamento é do Facebook Journalism Project.

A análise dos dados ficou a cargo do Volt Data Lab, liderado pelo jornalista Sérgio Spagnuolo. O mapeamento também inclui a publicação de uma API (interface de programação de aplicativos). “Esta ferramenta permitirá a implementação de aplicações, automatização de análises e gráficos e facilitação do uso dos dados do Atlas por pesquisadores", disse Spagnuolo. 

https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,em-ano-de-eleicoes-62-das-cidades-brasileiras-nao-terao-cobertura-de-jornalismo-local,70003122042

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/12/pesquisa-aponta-626-das-cidades-brasileiras-como-desertos-de-noticias.shtml