Legislações para coibir ódio nas redes sociais limitam a liberdade de opinião, diz CEO da Axel Springer Reprodução

Legislações para coibir ódio nas redes sociais limitam a liberdade de opinião, diz CEO da Axel Springer

A criação de legislação específica para combater o discurso de ódio nas redes sociais é um caminho equivocado e tem o potencial de limitar a liberdade de opinião. A opinião é de Mathias Döpfner, CEO da editora alemã Axel Springer, para quem a principal causa do ódio da desinformação espalhado na web é a existência de contas falsas, cuja responsabilidade é das empresas digitais.   

“Os proprietários das plataformas dizem que isso não é possível tecnicamente ou que é muito difícil”, comenta Döpfner em entrevista à revista Der Spiegel. “Mas estou convencido de que se os legisladores adotassem as medidas relevantes aqui, as plataformas encontrariam a possibilidade de identificar essas contas”. O executivo assinala que, quando alguém pode ser identificado, é tarefa da promotoria decidir se os limites foram ou não ultrapassados.

Döpfner ressaltou ainda que o ambiente confuso, incluindo o ódio e a desinformação, da internet pode ser enfrentado pelo jornalismo. No entanto, reforçou o executivo, esse jornalismo precisa encontrar um modelo de negócio que garanta a sua sustentabilidade. “Cada vez menos dinheiro entra nas redações, o que impacta a qualidade do jornalismo. Isso contribui para o nosso clima social”.

Paradoxo favorável aos populistas

Na entrevista, Döpfner disse que cada vez menos alemães “se atrevem” a dizer o que pensam.  “Na medida em que manifestar a opinião exige menos valor, menos coragem há disponível. Sob Hitler e Stalin havia pessoas que arriscavam a vida. Na Alemanha de 2019 se arrisca a um linchamento digital. E dificilmente alguém se atreve a fazê-lo. Isso não é bom. A réplica é um solo de cultivo de una sociedade aberta e democrática”.

Döpfner disse acredita que a sociedade alemã vive atualmente diante de um paradoxo: de um lado, a polarização máxima e o embrutecimento dos costumes, principalmente nas redes sociais; em contraste, políticos, jornalistas, executivos e artistas estão cada vez mais cautelosos. Essa combinação, segundo ele, fortalece um ciclo errático no debate público, favorável aos populistas não apenas na Alemanha.   

Como exemplo, o CEO da Axel Springer cita a ascensão do presidente norte-americano Donald Trump que, de maneira metódica jogou fora todas as regras clássicas da comunicação política e, por meio da polarização extrema e ruptura de tabus, venceu as eleições. Muitas pessoas acharam o que ele disse horrível, enfatiza Döpfner, mas tiveram a sensação de que ele pelo menos dizia o que pensava. “É por isso que acredito que muita correção política no final causa exatamente o oposto: intolerância, racismo e xenofobia. O resultado é polarização, enfraquecimento da democracia”.

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