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Estudo detalha como a tecnologia é usada para fortalecer a autocracia Reprodução - Kadir Van Lohuozen - Noor - Redux

Estudo detalha como a tecnologia é usada para fortalecer a autocracia

As novas tecnologias trouxeram avanços inegáveis à humanidade, mas também oferecem aos governantes autoritários novos e sofisticados métodos para preservar o poder, dizem os especialistas em segurança digital Andrea Kendall-Taylor, Erica Frantz e Joseph Wright, em artigo na revista Foreign Affairs. “Está claro que a tecnologia não favorece necessariamente aqueles que procuram fazer suas vozes serem ouvidas ou resistir a regimes repressivos. Diante da crescente pressão e do crescente medo do próprio povo, os regimes autoritários estão evoluindo. Estão adotando a tecnologia para remodelar o autoritarismo na era moderna”.

Estudo conduzido pelos três estudiosos revela que, entre 2000 e 2017, 60% das ditaduras enfrentaram pelo menos um protesto antigovernamental de 50 participantes ou mais. Os movimentos, segundo a pesquisa, derrubaram dez autocracias, ou 23% dos 44 regimes autoritários que caíram durante o período. Outros 19 regimes autoritários mudança significativa na política autoritária. Historicamente, afirmam os especialistas, golpes de elites e oficiais militares representavam a maior ameaça às ditaduras. Agora, ela vem das massas conectadas pela internet e smartphones.

À medida que os protestos aumentaram, no entanto, os regimes autoritários adaptaram suas táticas de sobrevivência para se concentrar em mitigar a ameaça da mobilização em massa, diz o estudo. “Os dados compilados pela Freedom House revelam que desde 2000, o número de restrições às liberdades políticas e civis em todo o mundo cresceu. Uma grande parte desse aumento ocorreu em países autoritários, onde os líderes impõem restrições às liberdades políticas e civis para dificultar a organização e agitação dos cidadãos contra o Estado”.

Em análise de informações a respeito de 202 países, a pesquisa mostra que as autocracias que usam a repressão digital enfrentam um risco menor de protestos do que os regimes autocráticos que não empregam essas mesmas ferramentas. “A repressão digital não apenas diminui a probabilidade de um protesto ocorrer, mas também reduz as chances de um governo enfrentar grandes esforços de mobilização sustentados”, como na Tailândia, em 2010, ou os protestos anti-Mubarak e antimilitar no Egito em 2011.

Inteligência artificial

Diante da eficácia dessa repressão, os autoritários elevam suas apostas na tecnologia de vigilância – em alguns casos, alimentada por inteligência artificial –, o que permite aos déspotas automatizar o monitoramento e o rastreamento de suas oposições de forma muito menos invasivas que a vigilância tradicional, afirma o estudo. Essas ferramentas digitais permitem que regimes autoritários formem uma rede mais ampla do que com métodos dependentes de seres humanos e, o mais grave, usando muito menos recursos. “Ninguém precisa pagar um programa de software para monitorar as mensagens de texto das pessoas, ler suas postagens nas redes sociais ou acompanhar seus movimentos. E uma vez que os cidadãos aprendem a supor que todas essas coisas estão acontecendo, eles alteram seu comportamento sem que o regime precise recorrer à repressão física”, afirmam os especialistas.

A China lidera o ranking dos países que mais usam a tecnologia para reprimir a população. O Partido Comunista Chinês, destaca o estudo, coleta uma quantidade incrível de dados sobre indivíduos e empresas: declarações fiscais, extratos bancários, históricos de compras e registros médicos e criminais. “O regime então usa a IA para analisar essas informações e compilar as ‘pontuações de crédito social’, que procura usar para definir os parâmetros de comportamento aceitável e melhorar o controle do cidadão”.

As ditaduras também podem usar novas tecnologias para moldar a percepção pública do regime e sua legitimidade, continua o trabalho. “Contas automatizadas (ou ‘bots’) nas mídias sociais podem amplificar campanhas de influência e produzir uma enxurrada de postagens perturbadoras ou enganosas que impedem as mensagens dos oponentes”, diz a pesquisa. Esta é uma área em que a Rússia desempenha um papel de liderança, segundo os estudiosos.

À medida que as autocracias duram mais, explicam Kendall-Taylor, Frantz e Wright, é provável que o número desses regimes em vigor a qualquer momento possa aumentar. “Embora o número de autocracias em todo o mundo não tenha aumentado substancialmente nos últimos anos, e mais pessoas do que nunca vivem em países que realizam eleições livres e justas, a maré pode estar virando”, alerta o estudo. Os dados coletados pela Freedom House mostram, por exemplo, que entre 2013 e 2018, embora houvesse três países que mudaram do status “parcialmente livre” para “livre” (Ilhas Salomão, Timor-Leste e Tunísia), havia sete que experimentaram o inverso, passando de um status de "livre" para um de "parcialmente livre" (República Dominicana, Hungria, Indonésia, Lesoto, Montenegro, Sérvia e Serra Leoa).

O papel dos Estados Unidos

Os pesquisadores afirmam que o contra-ataque à disseminação do autoritarismo digital exige abordar os efeitos prejudiciais das novas tecnologias na governança, tanto nas autocracias quanto nas democracias. Para eles, os Estados Unidos devem liderar essa reação. “As agências governamentais dos EUA e grupos da sociedade civil também devem buscar ações para mitigar os efeitos potencialmente negativos da disseminação da tecnologia de vigilância, especialmente em democracias frágeis”.

Resta saber se com a possibilidade de reeleição do presidente Donald Trump esse projeto terá chance de vingar. A campanha de republicano, diz McKay Coppins, da The Atlantic, vem emprestando táticas de ditadores e demagogos no exterior pretende gastar US $ 1 bilhão no "que poderia ser a mais extensa campanha de desinformação da história dos Estados Unidos" para influenciar a eleição de 2020. Citado Scott Rosenberg, do site Axios, Coppins oferece a perspectiva de uma eleição "moldada por ataques coordenados de bots, propagação de medo micro-direcionada e mensagens de texto anônimas". 

Segundo a The Atlantic, as principais táticas digitais da candidatura de Trump são:

Conte mentiras descaradas;

Mine a confiança do público na imprensa;

Reúna dados detalhados sobre os apoiadores e inunde o Facebook com anúncios direcionados a eles;

Use esses anúncios para aumentar a participação e a angariação de fundos;

Use bots no Twitter para "simular falso consenso, atrapalhar o debate sincero e perseguir pessoas para fora da praça pública";

Inocule apoiadores contra fatos;

Instale confusão e dúvida nos oponentes.

Leia mais em:

https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2020/03/the-2020-disinformation-war/605530/

https://www.foreignaffairs.com/articles/china/2020-02-06/digital-dictators?utm_medium=newsletters&utm_source=twofa&utm_content=20200207&utm_campaign=TWOFA%20020720%20%09%20The%20Digital%20Dictators%3B%20The%20Epidemic%20of%20Despair%3B%20How%20to%20Prepare%20for%20a%20Coronavirus%20Pandemic&utm_term=FA%20This%20Week%

https://www.axios.com/trump-disinformation-atlantic-2020-election-6833af02-8a0e-49dc-aafe-6e6b60ac6d8d.html