As pessoas estão dispostas a investir no que vale a pena e vão pagar pela notícia, diz CEO da The New York Times Company

Notícias falsas, bolhas de realidades próprias (ou alternativas), discursos de ódio e mensagens preconceituosas permanecem vivas nas redes sociais. As mídias com base em tecnologia, lideradas pelo duopólio formado por Google e Facebook, não deram respostas satisfatórias para proteger usuários e anunciantes. A desinformação digital influencia a realidade, destrói reputações, arranha a credibilidade de marcas e é utilizada para manipular a política. Essa alquimia é vista por muitos como um poderoso veneno capaz de liquidar o jornalismo. Até aqui, porém, ocorre o contrário. O jornalismo se fortalece e, mais do que isso, vê aumentar o número de pessoas convictas de que é preciso financiar a atividade para garantir a separação da verdade da mentira. “Me disseram que o modelo de conteúdo pago não ia funcionar, mas as pessoas estão dispostas a pagar por algo que vale a pena; as pessoas vão pagar pela notícia, como fazem por séries no Netflix ou por músicas, no Spotify”, aposta o jornalista e escritor britânico Mark Thompson, presidente e CEO da The New York Times Company, que edita o jornal de mesmo nome.

Em recente entrevista ao jornal ao jornal espanhol El Mundo, ex-diretor geral da emissora pública BBC, do Reino Unido, enfatizou que, além da disposição dos leitores, assustados com tamanha desinformação nas redes sociais, a maneira “mais saudável de financiar o jornalismo” é, de fato, buscar consumidores que pagam por ele. “Nós pensamos que produzimos algo de qualidade pelo qual se deve pagar. Se você fabrica sapatos ou cultiva frutas, por que dá-los?”, provoca. Thompson diz que, no fundo, se trata do resultado lógico da equação do atual estágio da adequação da imprensa à era digital e, ao mesmo tempo, de deixar para trás características bem diferentes, de um mercado em extinção.

“Os jornais ocidentais em geral desfrutaram no século XX de um monopólio – ou ao menos de um oligopólio – na criação e distribuição de notícias. Podiam cobrar quantidades enormes por publicidade, mas esse modelo está para desaparecer”, comenta Thompson. Dessa forma, afirma, a publicidade impressa deixava margens de lucro muito amplas e bancava as redações. De certa forma, isso ainda é visto hoje. No The New York Times, exemplificou o executivo, a rentabilidade bruta por dólar dos anúncios na edição em papel está próxima dos 90%. O problema é que essa publicidade míngua ano após ano, a propaganda online é bem menos rentável e, ao contrário do que se imaginava, o número de usuários não compensou essa perda. “Ao final, as plataformas digitais, com sua posição dominante, recebem a maior parte das receitas, sobretudo as novas”, diz Thompson, ressaltando que, agora, são essas empresas que têm o poder de decisão sobre os preços.

O jornalista ressalva que a publicidade digital pode ter um papel importante para os jornais – a The New York Times Company fatura mais do que US$ 200 milhões ao ano com esse tipo de propaganda. “Mas não me parece suficiente”, afirma Thompson, lembrando que o principal título da empresa que ele comanda acumula 2 milhões de assinaturas somente digitais, 1 milhão de assinantes da edição impressa (que também têm acesso a conteúdos online) e outros 200 mil que pagam pelo serviço diário de palavras-cruzadas. “Temos assinantes até na Antártida! E dos 2 milhões exclusivamente digitais, 276 mil foram conquistados no último trimestre de 2016, o que mostra como o número cresce muito rapidamente.

Hora de defender os fatos

Thompson destaca, em outra entrevista, ao também espanhol El País, que os modelos de assinaturas digitais são os mais adequados diante da degradação do debate político mundial e do rompimento das relações entre políticos, mídia e público, fenômeno que surgiu junto com os avanços da tecnologia aplicada à comunicação. A receita para refazer essa conexão, afirma, também está no meio online, e passa necessariamente pela valorização (incluindo a monetária) do jornalismo profissional. “Creio que é o melhor que podem fazer os jornais sérios, porque permite estabelecer uma relação direta com o usuário, que entende o valor do que você faz e está disposto a pagar por ele”, reforça.

Em artigo na revista Letras Libres, Thompson disse que, em grande parte do mundo, os governos fazem como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: escondem os fatos reais e promovem suas versões alternativas da realidade. “Mas você não pode reconstruir qualquer coisa, muito menos uma linguagem pública saudável, baseada em mentiras, meias-verdades e teorias da conspiração. É chegada a hora que todos nós defendamos os fatos. Isso inclui o The New York Times e o restante dos meios responsáveis, mas também os leitores”, alerta.

Ao El Mundo, Thompson defendeu o modelo poroso de conteúdo pago aplicado pelo The New York Times. Ao responder a importância de usuários únicos, ele disse que jornal alcançou nos últimos meses a marca de 140 milhões visitas de pessoas espalhadas pelo mundo. “Mas o importante é que temos conseguido manter relativamente alto o número dentro do modelo pago. Neste funil, há muito mais pessoas na parte mais larga, mas cada vez mais leitores fiéis que podem se tornar assinantes.” No sistema do jornal, é possível ler gratuitamente até dez textos ao mês. “Deixamos que as pessoas leiam. Quando ocorre algo de maior importância, isso fica para o pago. Acostumamos o leitor ao bom jornalismo, o que contribui para o modelo de pago.”

Leia mais em:

http://www.elmundo.es/television/2017/04/17/58f24a74ca474187538b45c3.html
http://cultura.elpais.com/cultura/2017/03/27/actualidad/1490622910_772524.html
http://www.letraslibres.com/espana-mexico/revista/el-lenguaje-la-politica