AP revisa sua cobertura da Alemanha nazista, admite equívocos, mas rechaça ter colaborado com Hitler

A agência de notícias norte-americana Associated Press (AP) reconheceu, em detalhada revisão de sua cobertura na Alemanha nazista, que tratou de forma inadequada algumas situações durante a Segunda Guerra. “Reconhecemos que a AP deveria ter feito as coisas de outro modo durante esse período, por exemplo, protestar quando suas fotos eram exploradas pelos nazistas para propaganda interna na Alemanha e recusar-se a empregar fotógrafos alemães com afiliação e lealdade política ativas”, diz o relatório. A empresa, entretanto, rechaçou a tese de que tenha colaborado com o regime, defendida em estudo da historiadora Harriet Scharnberg. “Sugestões de que a AP em algum momento tentou ajudar os nazistas ou a sua causa hedionda estão simplesmente erradas”, afirma o documento produzido pela agência de notícias. A AP concluiu que agiu “da maneira mais franca e independente possível” durante o conflito.

A pesquisa de Harriet, historiadora da Universidade Martin Luther, foi publicada no portal alemão de estudos de história contemporânea Zeithistorische Forschungen e noticiada em março de 2016 pelo jornal The Guardian. A AP foi a única agência de notícias ocidental autorizada a operar na Alemanha de Adolf Hitler, enquanto diversos órgãos de imprensa estrangeiros foram banidos ou forçados a encerrar suas atividades após sofrerem ataques por empregarem jornalistas judeus. O estudo de Harriet sustenta que a agência — expulsa da Alemanha quando os Estados Unidos entraram na guerra, em dezembro de 1941 — somente conseguiu manter suas atividades no país em razão de uma colaboração mútua com o regime nazista.

A AP, diz o estudo, teria se submetido à chamada Schriftleitergesetz (lei dos editores), que proibia a veiculação de materiais destinados a “enfraquecer o poder do Reich no exterior ou no país” e obrigava os meios de informação a contratar repórteres que trabalhavam para a divisão de propaganda do regime nazista. Um dos fotógrafos contratados pela agência, Franz Roth, teria sido indicado diretamente por Hitler, que também selecionava as fotos dele que seriam distribuídas pela agência. Na época da divulgação da pesquisa, a Associated Press negou, em comunicado, qualquer alegação de que teria colaborado propositalmente com os nazistas e afirmou que a pesquisa da historiadora se refere a uma agência de fotos alemã que era subsidiária da AP britânica.

A revisão empreendida agora pela agência voltou a refutar a conclusão da pesquisa de que tenha sido de certa forma cúmplice do regime nazista durante os anos de 1933 a 1941. A “Devido em grande parte às reportagens agressivas da AP, os perigos das ambições nazistas de dominação da Europa e o tratamento brutal dado aos adversários foram revelados ao mundo como um todo”, sustenta o relatório.

O documento, segundo relatou a Folha de S.Paulo, enumera casos em que os editores da AP se chocaram com censores nazistas e também exigiram que medidas mais fortes fossem tomadas para manter o serviço de fotografia da AP na Alemanha livre da propaganda nazista. O relatório também cita reportagens da agência nos anos 1930 que alertaram os leitores nos EUA sobre os atos de antissemitismo e crueldade do regime nazista, tanto em palavras como em fotos.

A editora-executiva da AP, Sally Buzbee, disse que a cobertura da agência na Alemanha nazista refletiu seus princípios básicos de reportagem. “É essencial cobrir os regimes tirânicos e outros movimentos antidemocráticos, quando possível de dentro das fronteiras que eles controlam, para transmitir de maneira correta o que acontece lá”, declarou. “É o que fazemos, sem comprometer a independência ou os padrões da AP.”

O relatório foi escrito por Larry Heinzerling, um professor-assistente adjunto na Escola de Jornalismo de Columbia e vice-editor aposentado da seção internacional da AP, com contribuições do pesquisador investigativo Randy Herschaft. A pesquisa começou há mais de um ano, com uma revisão de arquivos da agência até então não examinados. Depois ela se estenderia a outros registros, incluindo documentos militares dos EUA e histórias verbais e documentos pessoais de funcionários já falecidos. Harriet Scharnberg também foi entrevistada.

Leia mais em:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/05/1883041-agencia-ap-divulga-revisao-de-sua-cobertura-da-alemanha-nazista.shtml

http://www.chicagotribune.com/sns-bc-rep-gen-ap-y-la-alemania-nazi-20170510-story.html

http://www.dw.com/pt-br/associated-press-%C3%A9-acusada-de-ter-colaborado-com-regime-nazista/a-19152491