Reconhecimento facial é o novo normal

FOLHA DE S.PAULO - 19/08/2019

Ronaldo Lemos

A história recente da tecnologia nos últimos 20 anos consiste em transformar práticas que inicialmente amedrontam em situações cotidianas e normais. É só pensar no surgimento das redes sociais. No início, muita gente tinha receio de publicar fotos pessoais. Hoje, são territórios de superexposição. 


O mesmo acontece com a ideia de “geolocalização”. No começo, havia quem ficasse de cabelo em pé com a possibilidade de revelar na internet um lugar que estava visitando. Hoje, isso é prática comum e, na verdade, nossa localização é monitorada 100% do tempo por incontáveis aplicativos no celular.

A bola da vez em termos de temor tecnológico é o reconhecimento facial. Por causa do avanço da inteligência artificial e do acesso fácil a bancos de dados com o rosto de pessoas nos mais variados ângulos (lembra-se daquelas fotos que você postou online?), essa ferramenta será a próxima a se normalizar. 

Mais uma vez, conveniência e eficiência vão falar mais alto. É só pensar no surgimento da nova geração de academias de ginástica que funcionam 24 horas, como a rede inglesa Buzz. Elas praticamente operam sozinhas, com pouquíssimos funcionários. O modelo só existe por causa do reconhecimento facial. O usuário se inscreve online e recebe um código. Para entrar em uma unidade, basta digitar esse código na entrada da academia, que não tem “portaria”. 

Mas como evitar que o código não vai ser compartilhado por várias pessoas? A solução é o reconhecimento facial. Se pessoas com rostos diferentes usarem o mesmo código, o sistema automaticamente irá banir os perpetradores “por toda a vida”. Adeus, acesso à rede, para sempre.

A tecnologia de reconhecimento facial avançou tanto que hoje é capaz de identificar um indivíduo sozinho com 99,8% de precisão. Para indivíduos que estão em áreas públicas, entre outras pessoas, em deslocamento ou em multidões, a precisão é significativamente menor, mas avança. Em resposta a isso, pesquisadores e ativistas vêm desenvolvendo tecnologias capazes de “enganar” os sistemas de reconhecimento. 

Um exemplo é um tipo de maquiagem desenvolvido pelo artista Adam Harvey em 2010 que, ao ser aplicada, faz o rosto “desaparecer” para as máquinas. Seu projeto mais recente se chama Hyperface. Consiste em uma estampa que pode ser aplicada em roupas.

Essa estampa traz inúmeros “rostos” artificialmente codificados (o resultado parece uma roupa “clubber” dos anos 1990). Quando uma máquina vê alguém andando pela rua assim, registra que há inúmeros rostos andando juntos, reduzindo a precisão do reconhecimento.

Outro exemplo é um boné desenvolvido em 2018 que contém diversos diodos que projetam luz infravermelha sobre o rosto da pessoa. Esse tipo de luz é invisível ao olho humano, mas é captada pelas máquinas. Ao fazer isso, é possível impedir o reconhecimento do rosto da pessoa. 

Ainda mais interessante, é possível programar a emissão de luzes para enganar a máquina, fazendo com que ela identifique o rosto de outra pessoa. Em testes feitos contra o sistema de reconhecimento facial do Google, a taxa de falsos positivos alcançados foi de 70%.

Em breve, será preciso atualizar aquela conhecida frase para: “Sorria, você está sendo filmado e reconhecido”.

READER
Já era O hype do blockchain

Já é Achar que blockchain não serve para nada

Já vem Games que rodam com blockhchain, como o “Daog”