Ironicamente, afirma Evgeny Morozov, o atual modelo pode acelerar os planos de evolução da Alphabet Ironicamente, afirma Evgeny Morozov, o atual modelo pode acelerar os planos de evolução da Alphabet / Reprodução/Reuters/Forbes

Combate ao duopólio Google-Facebook erra ao não priorizar os dados, diz especialista

As iniciativas da União Europeia (UE), que envolvem pesadas multas, e outras frentes de combate às práticas anticompetitivas do duopólio digital Google-Facebook e das demais empresas de tecnologia são pouco eficazes e atrasadas. Isso porque, alerta o especialista nas implicações sociais da tecnologia Evgeny Morozov, não estão centradas no que é mais importante: os dados. “Os dados não são como qualquer outra matéria prima, e os mercados de dados não são como qualquer outro mercado. É importante solucionar as compras na Internet, mas não se isso vier a acelerar a transição a uma forma perversa de feudalismo de dados, no qual o recurso mais importante pertence somente a uma ou duas empresas", afirma Morozov em artigo publicado pelo jornal espanhol El País.

O especialista diz que, no caso do Google, ironicamente, o modelo de combate ao domínio da gigante de buscas na internet pode acelerar os planos de evolução da sua controladora, a Alphabet: novos negócios, nas mais variadas áreas, construídos a partir da enorme quantidade de dados que já detém de pessoas de quase todo o mundo e, também, na venda dessas informações. Morozov justifica sua tese ao argumentar que, atualmente as atividades da Alphabet estão concentradas em encontrar usos lucrativos e criativos para os valiosos dados que foram recolhidos, extraídos, processados e convertidos em inteligência artificial. Isso, diz, será a base para a próxima etapa de atuação da empresa do Vale do Silício. “O futuro da Alphabet gira em torno dos serviços com o uso intensivo de informação”, enfatiza o analista.

Morozov explica que a estratégia de longo prazo da companhia norte-americana tem duas linhas principais. Uma delas é aprender o máximo possível sobre cada usuário e, para isso, oferece serviços (aplicativos, plataformas etc) altamente subsidiados. Até aqui, não gerou muita renda, mas sim uma quantidade gigantesca de dados que permitem a Alphabet prever as necessidades de informação das pessoas. Em paralelo, a companhia norte-americana tem usado os dados dos usuários para criar serviços avançados, muitos deles baseados em inteligência artificial, que podem ser vendidos a governos e empresas.

“O que faz a diferença é o tamanho da Alphabet: tendo em conta a quantidade de dados que já tem e os serviços que criou com eles, estará muito à frente de seus concorrentes na identificação de ataques cibernéticos maliciosos, na busca pela cura do câncer ou retardar o envelhecimento”, projeta Morozov. Por isso, afirma o especialista, a Alphabet não precisa mais se preocupar com suas promessas de produtos gratuitos ou anticompetitivos, tão criticados por autoridades antitruste e outras empresas que precisam atuar no mercado digital, como a indústria jornalística.

Um vislumbre desse futuro, diz o especialista, está no anúncio da Alphabet segundo o qual os algoritmos do Google não “lerão” mais os e-mails para direcionar anúncios, curiosamente feito pouco antes de a multa da UE se tornar pública. Ainda que a iniciativa esteja mais voltada a passar credibilidade a empresas que compram produtos do Google e querem confidencialidade nas suas comunicações, a empresa que controla a gigante de buscas já tem dados suficientes sobre as pessoas e, assim, pode abrir mão desse tipo de recurso, ressalta o especialista.

Morozov sugere um caminho alternativo à forma como o mercado digital está estabelecido atualmente. Para aproveitar todo o conhecimento obtido ao unir diferentes conjuntos de informação, afirma, esses dados deveriam pertencer a uma única entidade, mas não necessariamente a uma empresa tecnológica, como a Alphabet. Tudo o que se gera em um país, exemplifica, poderia ser armazenado em fundo de dados nacional, do qual todos os cidadãos seriam coproprietários. Neste caso, quem quiser criar novos serviços empregando essas informações teria que fazê-lo em um ambiente muito competitivo e regulado, além de pagar a parte correspondente de seus benefícios por usar os dados. “Esta possibilidade assustaria as empresas tecnológicas muito mais que a perspectiva de uma multa”.

Leia aqui o artigo na íntegra.