O ESTADO DE S.PAULO – 30/09/2018

Bruno Capelas

A guerra pelos fãs de música está longe de ter um vencedor. Apesar de existir há mais de uma década, o mercado de streaming está cada vez mais competitivo. Só nesta semana duas plataformas ganharam nova cara no Brasil – o YouTube Music, do Google, e o Tidal, que tem entre seus proprietários artistas como Beyoncé e Claudia Leitte. Lá fora, uma fusão entre dois gigantes – Sirius XM e Pandora, que somam mais de 100 milhões de usuários – tenta achar espaço em um campo de apps exclusivamente voltados à música, como Deezer e Spotify, e serviços ligados às gigantes de tecnologia, que inclui ainda Amazon Music e Apple Music.

Essas empresas conseguiram tirar a indústria fonográfica da crise. Entre 1999, ano que surgiu o Napster, primeiro serviço a popularizar o compartilhamento de arquivos MP3 na internet, e 2013, o mercado da música só diminuiu. Desde então, o resultado virou e, no ano passado, o streaming se tornou a principal fonte de receitas da indústria, com faturamento de US$ 6,6 bilhões, ou 38% do total, segundo a IFPI, que reúne dados da indústria fonográfica. Segundo a mesma entidade, o Brasil está entre os dez maiores mercados globais de streaming de música.

Mas a sustentabilidade dessa onda positiva é colocada em xeque pelo fato de que mesmo os líderes de streaming de música perdem dinheiro. O Spotify, líder do setor, com 83 milhões de assinantes, teve prejuízos de ¤ 394 milhões no segundo trimestre. Segundo fontes do setor, a concorrência opera dentro do mesmo esquema – o francês Deezer, por exemplo, admite que só ganha dinheiro em seu país de origem. Os serviços de empresas de tecnologia também não dariam lucro, mas têm a vantagem de contar com o suporte de Apple, Amazon e Google, que hoje são as três empresas mais valiosas do mundo.

Queda de braço. Segundo Michael Pachter, diretor da consultoria Wedbush Securities, o que atrapalha o modelo de negócios é o fato de os serviços não terem a propriedade de sua matériaprima – a música. Segundo estimativas do setor, 70% do dinheiro das assinaturas vai para as gravadoras. Por isso, diz Pachter, o nome do jogo é ganhar escala e conseguir negociar para baixo os valores pagos aos artistas – embora eles reclamem que, no fim das contas, recebam muito pouco desses serviços.

Esse ajuste, no entanto, vai se dar apenas no longo prazo, segundo Paulo Rosa, presidente da Pro Música Brasil, que reúne as principais gravadoras do Brasil. Para Arthur Fitzgibbon, diretor no Brasil da agregadora OneRPM, que faz o meio de campo entre streaming e artistas, o mercado ainda é jovem e “deve se multiplicar muitas vezes até 2022”.

O atual esquema do mercado, que tem ajudado a salvar as gravadoras, já está começando a ser desafiado. O The New York Times reportou que o Spotify já começou a negociar diretamente com os artistas – eliminando “atravessadores” de seu caminho. É uma questão de margens, diz Juliano Polimeno, da plataforma de inteligência musical Playax. Com menos elos da cadeia, tanto o Spotify quanto os artistas vão ganhar mais.

Novidades. Enquanto o setor busca novas formas de remuneração, há serviços que só agora começam a dar os primeiros passos em mercados como o Brasil. É o caso do YouTube Music, lançado na semana passada, e que une o catálogo das gravadoras ao acervo de vídeos de música que já existe no site. Com assinatura a R$ 17 – e versão grátis com anúncios –, a plataforma quer oferecer uma experiência completa, diz Sandra Jimenez, chefe de música do YouTube para a América Latina: “Temos o cover, a coreografia, a versão ao vivo, o vídeo com as letras”, diz.

Depois de chegar ao Brasil em 2015 e não conseguir decolar, o Tidal está voltando ao mercado, agora em parceria com a operadora Vivo. “Não somos uma grande empresa de tecnologia. Precisamos de parceiros fortes”, diz Lior Tibor, diretor de operações do Tidal. Não é uma estratégia nova: há alguns anos, a Deezer se associou à TIM para crescer sua base de usuários no País e hoje colhe os frutos da estratégia (leia mais abaixo).

A atuação no Brasil, porém, embute desafios. Os serviços precisam se desdobrar para driblar questões de infraestrutura, como problemas de conexão à internet, e de cunho econômico. Enquanto nos Estados Unidos e na Europa o acesso a cartão de crédito é quase universal, por aqui, os serviços têm de se adaptar aos desbancarizados se quiserem atingir um grande número de consumidores.

Além disso, o carro-chefe no País são os conteúdos locais, como sertanejo, funk e gospel, o que dificulta a curadoria. E, por causa da onda de pirataria da última década, as pessoas querem a música, mas não estão dispostas a pagar por ela. “Tem uma geração inteira que precisa ser educada a pagar por música”, diz Vieira, da Deezer.

ESCOLHA DE APLICATIVOS NÃO SEGUE REGRA

Giovanna Wolf Tadini

Assinante do Spotify desde 2014, quando o serviço chegou ao Brasil, o estudante de relações públicas Vitor Hugo Capelini, de 24 anos, gostava do serviço, mas tinha uma frustração: um de seus artistas favoritos, o rapper Jay-Z, não fazia parte do conteúdo da companhia. Isso porque o cantor é dono do rival Tidal. Para resolver o problema, o estudante acabou acumulando assinaturas. “Hoje, intercalo entre os dois serviços no dia a dia, porque acabei gostando da usabilidade do Tidal”, diz.

O caso de Capelini é apenas um exemplo de como o mercado de streaming de música hoje é complexo. Há várias opções para os brasileiros e nenhuma regra específica para escolher entre um serviço ou outro.

No caso de Davi Pina, estudante de 26 anos, foi a operadora telefônica que deu a sugestão – no caso, a parceria entre TIM e Deezer. Outra rota fácil para se chegar aos apps é escolher o serviço que os amigos já usam – afinal, se

antigamente as pessoas trocavam fitas cassete, hoje elas trocam playlists. É o caso da estudante de engenharia Gabriela Corona, de 21 anos. “Um amigo me sugeriu o Spotify e eu gostei.

Acabei assinando com a família”, diz.

Dividir os custos dos serviços com os parentes é algo também comum – a maioria das plataformas têm ofertas de cerca de R$

30, na qual é possível compartilhar um plano com quatro, cinco ou seis pessoas.

Foi a forma que a dona de casa Lélia Asse, de 48 anos, entrou no mundo do streaming. Tudo começou quando os dois filhos pediram para a mãe assinar o plano família do Spotify. Ela incorporou o aplicativo à sua rotina, em vez de deixá-lo apenas na fatura do cartão.

“Escuto a noite inteira ou quando passo roupa. Vivo compartilhando músicas com minha filha”, diz Lélia, que gosta de MPB. Mas nem ela é 100% fiel: quando está na sala, prefere usar o YouTube. “Quero ver imagem, um show inteiro, e aí é melhor do que o Spotify.”

Ter um grande acervo, com versões ao vivo e vídeos, é um dos trunfos do YouTube Music, serviço que chegou essa semana ao País. Para os usuários ouvidos pelo Estado, a plataforma é atrativa, mas será difícil converter fiéis. “Tenho playlists prontas baixadas no Spotify”, diz Gabriela. “Eu já pago, estou acostumada a ele, não mudaria para um aplicativo diferente agora”.