O GLOBO – 29/09/2018
MARLENE DUARTE E MÔNICA CHAVES
Nos últimos meses, proliferaram iniciativas visando a ensinar a combater as chamadas fake news. Embora essas ações ajudem as pessoas a identificarem conteúdos falsos que viralizam nas redes sociais, não são suficientes para ensiná-las a lidar com o ecossistema de desinformação em que estamos imersos. O ambiente de informações é, hoje, descentralizado. A curadoria das notícias é disputada por profissionais (jornalistas) e não profissionais. Um dos resultados disso é que, segundo o Digital News Report 2018, relatório sobre o consumo de notícias no meio digital em 37 países, 54% das pessoas estão preocupadas com conteúdo falso na internet. Os índices são mais altos no Brasil (85%), Espanha (69%) e Estados Unidos (64%), onde a polarização política se combina com o alto uso de mídias sociais.
Pela primeira vez, o relatório mediu a news literacy (habilidade de avaliar a confiabilidade das notícias). Uma das conclusões foi a de que pessoas com níveis mais altos de news literacy prestam mais atenção a pistas sobre a credibilidade: em que veículo a história foi publicada? Quem compartilhou o link? Os demais tendem a dar mais importância ao número de comentários, curtidas e compartilhamentos. Ou seja, enquanto um grupo busca critérios qualitativos, o outro se baseia em dados quantitativos, o que não é suficiente para avaliar a veracidade de uma informação. Qualquer iniciativa no sentido de desenvolver habilidades de leitura crítica das notícias deve passar pela comunidade escolar, em caráter permanente. Em documento sobre alfabetização midiática, a Unesco defende que os professores atuem como agentes multiplicadores junto a alunos e pais. Sem iniciativas permanentes, as tentativas de combater o ambiente da desinformação serão como o trabalho de Sísifo, o rei mitológico condenado a carregar eternamente montanha acima uma pedra que teimava em rolar para baixo a cada vez que se aproximava do cume, forçando-o a começar de novo.