O GLOBO – 30/09/2018
Sérgio Matsuura
Diretor regional do Google, Fábio Coelho assegura que a empresa é apolítica, mas precisa encarar desafios como a difusão das fake news e a remoção de conteúdos. Também avalia o que pode melhorar em seu sistema de buscas e o fracasso de plataformas como o Orkut.
No Google, somos apolíticos e apartidários. Nosso papel é contribuir para que as pessoas possam ter acesso a informações sobre partidos, candidatos e propostas, para que tomem as melhores decisões. Olhando o cenário eleitoral, o que nós fizemos foi criar a maior quantidade possível de fontes de informação, com sites, painéis de conhecimento, ajudando o jornalismo a aprimorar a checagem de fatos. E entendendo que, nas nossas plataformas, os conteúdos que estão publicados não violam a lei.
Estão recebendo muitos pedidos de remoção de conteúdos?
Curiosamente, de 2014 para 2016 houve uma queda. E a gente percebe a continuação desse movimento para 2018. Acho que isso tem a ver com um entendimento maior das pessoas sobre o que pode ou não ser publicado. Nós somos ferrenhos defensores da liberdade de expressão, e ao mesmo tempo apoiamos a remoção de conteúdos em casos que seguem o devido processo legal.
Recentemente, houve uma polêmica sobre o nazismo ser de esquerda, contrariando dados históricos. Também existe o debate sobre a Terra ser plana, ou sobre as vacinas serem nocivas ao ser humano. Como vê o papel da internet, e do Google, na difusão dessas teorias?
O Google tem boas plataformas, mas não são sistemas de troca de mensagens, nem redes sociais. É nesses espaços onde grande parte desse debate está acontecendo. A questão das notícias falsas atrapalha o ambiente político, polariza a discussão, porque elas desinformam. Mas é algo que devemos observar com cuidado. A gente avalia como podemos ajudar o ambiente digital nessa mobilização, e isso faz parte do grupo que trabalha com checagem de fatos e jornalismo. Mas não estamos no centro desse furacão.
As buscas do Google completam 20 anos. O que pode ser melhorado?
Essa jornada está só começando. A tendência de as pessoas buscarem por mais coisas, mais vezes durante o dia, em todos os lugares, reflete um consumidor mais impaciente, mais exigente e mais curioso. Continuamos avançando numa jornada que começou há 20 anos na busca por computador apenas com sites fixos, para uma busca em celulares, com contexto e localização para aplicativos. E agora estamos evoluindo para a busca por voz, com o uso de inteligência artificial, para que possamos usar de maneira ainda mais intuitiva as buscas.
Nestas duas décadas, houve motivo para lamentar?
Toda nova tecnologia passa por um processo natural de discussão na sociedade — quais são as normas, os códigos e as etiquetas de uso. Isso é natural, não vejo algo para lamentar. Os prós, pela democratização do acesso e da produção de conteúdo, por muito se sobrepõem aos contras.
E sobre os produtos que não deram certo, como Orkut e Wave. Algum arrependimento?
Sinceramente, eu acho que faz parte do processo de lançar muitas plataformas algumas não funcionarem. Então, eu não lamento, acho que todas foram bons aprendizados. Algumas vieram na hora errada, à frente do seu tempo, ou não vieram com a experiência do usuário apropriada, os códigos de aceitação necessários. Uma que eu esperava que daria certo, mas não funcionou da forma esperada, foi o Google Glass. Mas eu acho que esse tipo de produto, esse modelo de interface, acontecerá algum dia.
De alguns anos para cá, o Google começou a comercializar hardwares próprios. Por que eles não chegam ao Brasil?
Essa questão tem dois lados. Nós estamos trazendo seletivamente produtos com parceiros, não necessariamente o hardware próprio do Google. Sobre a montagem local de qualquer hardware, ela exige escala, e a cadeia de fornecedores é bastante complicada. Então, estamos presentes por meio de terceiros e ainda avaliamos o momento certo para entrar no país.
Além do buscador, quais os outros produtos mais importantes para a empresa?
Temos oito plataformas com mais de um bilhão de usuários. Sem dúvida, o buscador é o mais importante, mas também temos o YouTube, o sistema operacional Android, o browser Chrome, o Google Maps e o Waze, o Google Drive e o Google Cloud.
Falando sobre produção de conteúdo, o senhor é pai de uma youtuber de sucesso, a chef mirim Ivana Coelho.
A carreira da Ivana tem a ver com uma curiosidade dela, de cozinhar e de expor na internet essa paixão para outras crianças e adolescentes que tenham o mesmo gosto. Ela hoje tem 300 mil seguidores no YouTube, quase 400 mil no Instagram, o que mostra uma geração de pessoas muito curiosas e empreendedoras. Eu, como pai, tenho orgulho, mas não me envolvo, até pelo meu trabalho no Google. Quem cuida da carreira dela é a minha mulher. Eu só fico orgulhoso.