O ESTADO DE S.PAULO – 11/10/2018

É enganoso o conteúdo de vídeo visto nas últimas semanas mais de 2 milhões de vezes nas redes sociais sobre supostas fraudes na eleição de 2014 descobertas graças à aplicação da Lei de Benford – uma regra estatística – aos resultados oficiais. Os responsáveis pelo vídeo anunciam que aplicarão a mesma metodologia para detectar uma suposta fraude na eleição presidencial deste ano.

No vídeo, o engenheiro Hugo César Hoeschl afirma haver “estudos com reconhecimento internacional” apontando 73,14% de “probabilidade de fraude” na eleição de quatro anos atrás. O Projeto Comprova, consórcio com 24 veículos de mídia com o objetivo de combater a desinformação durante o período eleitoral, do qual faz parte o Estado, não encontrou artigos acadêmicos de revisão independentes mencionando esse número.

Especialistas e estudos consultados pelo Comprova atestam que o método, por si só, não é capaz de provar irregularidades. Há extensa literatura acadêmica questionando a confiabilidade do uso da Lei de Benford para análise de integridade de eleições. Além disso, há casos em que tanto o modelo Benford como outros princípios matemáticos foram aplicados, com critérios diferentes, e nenhum indício de fraude foi apontado.

A missão da Organização dos Estados Americanos para auditar a integridade das eleições no Brasil descarta o uso dessa metodologia em razão da baixa confiabilidade.

Hoeschl também afirma que as urnas eletrônicas “não são auditáveis”. Embora a qualidade da auditoria seja constantemente questionada, a informação não é verdadeira. O resultado de 2014 passou por uma auditoria, a pedido do PSDB, e, nos 22 anos em que a votação eletrônica é usada no Brasil, não há fraude comprovada.

Ainda no início do vídeo, Hoeschl, que se apresenta como “pós-doutor” em governo eletrônico, afirma que “as urnas eletrônicas utilizadas no Brasil” não são utilizadas em nenhum outro país. De fato, cada nação tem o próprio modelo de equipamento, mas 23 países usam urnas com tecnologia eletrônica, parecidas com as brasileiras.