O GLOBO – 16/10/2018

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cogitou ontem a possibilidade de o jornalista saudita Jamal Khashoggi —desaparecido na Turquia há duas semanas — ter sido morto por “assassinos fora de controle”. Logoemseguida,aredeCNNeo “New York Times” indicaram queaArábiaSaudita—acusada pelo governo turco de ter assassinado e esquartejado o jornalista crítico ao regime do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman — estaria preparando um informe oficial abraçando esta versão.

Trump disse que falou ao telefone pela manhã com o rei Salman e que escutou uma “negativa muito, muito forte” sobre o envolvimento de Riad no desaparecimento de Khashoggi. No Twitter, Trump informou que enviaria o secretário de Estado, Mike Pompeo, à Arábia Saudita.

“Acabo de falar com o rei da Arábia Saudita, que nega ter qualquer informação do que pode ter acontecido com seu cidadão saudita”, escreveu o presidente.

Com a declaração, Trump abriu uma brecha para Bin Salman, que tem propagandeado reformas e feito esforços para transmitir uma imagem de renovação, alegar que os supostos assassinos não agiram sob as ordens da monarquia.

ALIADO IMPORTANTE

Na tarde de ontem, a CNN e o “New York Times” informaram que a Arábia Saudita está disposta a reconhecer a versão de que Khashoggi teria morrido durante um interrogatório mal conduzido, o que transmitiria a responsabilidade pela morte a agentes que teriam agido em desacordo com as orientações do governo.

A Arábia Saudita é, ao lado deIsrael,oprincipalaliadodos EUA no Oriente Médio. No governo Trump, sauditas e israelenses têm tido um papel vital na política de isolamento doIrã.Emnomedessaaliança, Washington vem ignorando os crimes de guerra de que os sauditas são acusados no Iêmen, onde intervieram em 2015 para conter uma insurgência pró-Teerã.

Segundo a porta-voz do Departamento de Estado, Heather Nauert, o presidente Trump determinou uma investigação “imediata e transparente sobre o desaparecimento de Khashoggi”.

O jornalista não é visto desde que entrou, em 2 de outubro, no consulado saudita em Istambul a fim de obter documentos para seu casamento. Segundo autoridades turcas, ele jamais saiu do edifício, onde teria sido assassinado e esquartejado por agentes sauditas. Ancara diz ter evidências de áudio e vídeo comprovando o crime.

Riad nega qualquer envolvimento no sumiço do jornalista, que vivia exilado nos EUA desde 2017 e colaborava com o jornal “Washington Post”.

No fim de semana, Trump ameaçou o reino com um “castigo severo” caso fosse comprovado o envolvimento do governo no desaparecimento de Khashoggi. Entretanto, dias antes já deixara claro ser contra sanções, pois o reino tem contratos de US$ 110 bilhões de compra de armas com os EUA.

AMEAÇA DE RETALIAÇÃO

Enquanto isso, autoridades sauditas e turcas começaram a inspecionar ontem o consulado saudita em Istambul. França, Reimo Unido e Alemanha cobraram uma “investigação séria e crível”. Em Riad, o rei Salman ordenou à Promotoria saudita que abrisse uma investigação interna.

No domingo, a Arábia Saudita rejeitou qualquer ameaça de sanção ligada ao desaparecimento do jornalista e ameaçou contra-atacar em caso de medidas hostis.