O GLOBO – 17/10/2018

PEDRO DORIA

Ao que tudo indica, e a não ser que algo grande mude repentinamente o rumo desta eleição, Jair Bolsonaro será o próximo presidente do Brasil. Terá quatro anos de mandato, lidará com um bloco de esquerda que aumentou no Congresso, o Supremo lhe acompanhará os passos, e o MP está ávido por mostrar sua independência. Quanto a nós, brasileiros, tem uma conversa séria que precisamos iniciar. É sobre a verdade.

Há uma onda de direita no mundo e dois livros recentes tratam dela. Um é do filósofo Jason Stanley, de Yale, ainda não foi publicado no Brasil. É “How Fascism Works: The Politics of Us and Them”. O outro é assinado pela exsecretária de Estado dos EUA no governo Bill Clinton Madeleine Albright —“Fascismo, Um Alerta”. São, ambos, muito parecidos na releitura que fazem dos métodos daqueles regimes. Pois, em vez de descrevê-los pelo ápice nos anos 1930 e 40, buscam a origem dos movimentos de Mussolini, Hitler, Franco e companheiros, no pós-Primeira Guerra e década de 20.

Fascismo é uma palavra ruim e nem todos os especialistas concordam com seu uso. Remete a genocídio, a regimes imperialistas e totalitários baseados no medo. Nada disso está próximo. Mas é importante reconhecer que um padrão se repete.

Os fascistas iniciais se reuniam ao redor de um líder que falava simples e direto. Entre seus ritos, celebravam a violência física, demonstravam altas doses de masculinidade, e apresentavam grande aflição com o que viam ser uma decadência sexual do tempo.

Tanto Stanley quanto Albright não veem fascismo como ideologia e sim como um método de atingir o poder. Aproveita-se de um momento de descrença e ali crescem. Sua principal marca: a criação de uma realidade paralela. Tornar o menos clara possível a distinção entre verdade e mentira, entre fatos e invenções, gerando assim insegurança a respeito do que realmente ocorre ao redor.

A nova direita que avança no mundo se comporta de forma similar, e é igualmente populista e autoritária. Nada indica que deixará de atuar na democracia. Mas Bolsonaro não está sozinho. Com ele estão Viktor Orbán, da Hungria; Rodrigo Duterte, das Filipinas; e Donald Trump, nos Estados Unidos.

Caso a cartilha lá de fora seja seguida por aqui, notícias falsas e teorias conspiratórias farão parte do dia a dia. Combater a mentira será a luta democrática mais importante dos próximos anos. Num ambiente em que conseguimos concordar a respeito dos fatos básicos, a democracia é forte.

O PT será o principal partido de oposição. Neste segundo turno, se mostrou incapaz de construir uma frente ampla por não conseguir reconhecer ter sido o protagonista do maior escândalo de corrupção governamental já comprovado. Também vem operando numa realidade paralela. Prefere atacar adversários e a imprensa. Se tem compromisso com a democracia, a hora do mea culpa é agora. É realmente importante.