O GLOBO – 19/10/2018

Duas semanas após o desaparecimento do jornalista saudita Jamal Khashoggi, o jornal americano “Washington Post” publicou o que seria sua última coluna, na qual escreveu sobre a importância da liberdade de imprensa no mundo árabe.

“O mundo árabe precisa de uma versão moderna dos antigos meios transnacionais para que seus cidadãos possam estar informados sobre os eventos mundiais, e mais importante ainda: devemos proporcionar uma plataforma para as vozes árabes”, escreveu Khashoggi.

O jornalista colaborava com o “Post” e residia nos EUA desde o ano passado, quando deixou seu país dizendo-se perseguido pelas críticas que fazia às políticas do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que exerce o poder de fato na monarquia absolutista.

O “Washington Post” já tinha deixado um espaço em branco, no último dia 5, no lugar da coluna de Khashoggi, mas a editora de Opinião, Karen Attiah, explicou que a decisão de publicar o último texto veio da constatação de que ele não voltaria.

Attiah afirmou ter recebido o texto do tradutor e assistente de Khashoggi no dia seguinte ao desaparecimento.

“O ‘Post’ suspendeu a publicação porque esperávamos que Jamal voltasse para nós para que ele e eu pudéssemos editá-lo juntos”, disse a editora. “Agora tenho que aceitar: isso não vai acontecer. Esta é a última parte dele que vou editar para o ‘Post’. Essa coluna capta perfeitamente seu compromisso e paixão pela liberdade no mundo árabe. Uma liberdade pela qual ele aparentemente deu sua vida.”

Num editorial da edição em que a coluna foi substituída por um espaço em branco, os editores do jornal conclamaram o governo da Arábia Saudita a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para deixar o jornalista exercer sua profissão.

“O mundo árabe enfrenta sua própria versão de uma Cortina de Ferro, imposta não por atores externos, mas por meio de forças domésticas que competem por poder”, afirmou Khashoggi na coluna publicada agora.