O ESTADO DE S.PAULO – 21/10/2018

O presidente dos EUA, Donald Trump, considerou ontem “crível” a versão dada pela Arábia Saudita sobre a morte do jornalista Jamal Khashoggi em uma “briga” no consulado do reino em Istambul, na Turquia, no dia 2. Em campanha para os candidatos republicanos no Estado do Arizona, Trump também disse que a prisão de 18 pessoas em Riad representa um “bom primeiro passo”.

Além disso, o presidente americano afirmou não acreditar que os líderes sauditas tenham mentido para ele em suas conversas nos últimos dias e afirmou que preferiria que qualquer sanção contra o reino não incluísse o cancelamento de contratos de venda de armas.

Apenas em maio de 2017, os EUA acertaram um contrato de US$ 110 bilhões em equipamentos e armas para a Arábia Saudita. Frequentemente, Trump se refere ao acordo como uma das grandes conquistas comerciais de seu governo, que deve criar “muitos empregos nos EUA”.

Resta saber agora qual será a posição do Congresso com relação ao caso. Antes das declarações de Trump, republicanos e democratas criticaram a versão oficial da Arábia Saudita. O deputado Adam Schiff, líder dos democratas na Comissão de Inteligência da Câmara, ironizou o governo saudita. “Khashoggi morreu brigando com 15 homens despachados pelos sauditas. Se ele estava mesmo brigando, era por sua vida”, disse. “Se o presidente não tomar uma atitude, o Congresso tomará.”

Até aliados próximos de Trump criticaram a nova versão que veio de Riad. O senador republicano Lindsey Graham criticou os sauditas. “Dizer que sou cético sobre a nova narrativa saudita sobre Khashoggi é pouco”, disse Graham, que já havia acusado a Arábia Saudita pelo assassinato e havia defendido a suspensão da venda de armas americanas ao reino.

Já prevendo a reação de deputados e senadores, o presidente americano disse que o Congresso terá um papel importante na escolha da resposta dos EUA à Arábia Saudita No entanto, Trump disse que essa decisão tem de levar em conta que o governo saudita “é muito rico” e tem “compras e investimentos” comprometidos no valor total de US$ 450 milhões com os EUA.

Ontem, a Casa Branca emitiu ainda um comunicado expressando “tristeza” pela morte do

jornalista saudita, que vivia nos EUA e escrevia para o jornal Washington Post. “Estamos tristes de saber da confirmação da morte de Khashoggi e oferecemos as nossas mais sentidas condolências à família, à namorada e aos seus amigos”, afirmou

a porta-voz do governo americano, Sarah Huckabee Sanders.

Versões. Khashoggi desapareceu no dia 2, após entrar no consulado saudita em Istambul para buscar documentos de que precisava para se casar com a namorada turca. Nos primeiros dias, o governo da Arábia Saudita sustentou a versão de que o jornalista havia deixado o consulado e não sabia de seu paradeiro.

O governo turco, no entanto, passou a divulgar a notícia de que tinha áudios que comprovavam o assassinato e esquartejamento de Khashoggi dentro do consulado. Mais de duas semanas depois, e com a pressão internacional cada vez maior, o governo saudita reconheceu que o jornalista morreu durante uma “briga” no local.