O GLOBO – 21/10/2018

DORRIT HARAZIM

‘Pior do que um crime, foi um erro.” A frase é atribuída ora a Talleyrand ora a seu parceiro de intrigas Fouché, que de matanças entendia um bocado. Ela se refere à execução do Duque d’Enghien —um Bourbon puro-sangue — que horrorizou a aristocracia europeia em 1804, e a indispôs de vez contra o mandante do crime, Napoleão Bonaparte. Também o assassina todo jornalista saudita JamalKhashoggi, em 2 de outubro último, foi mais do que um crime. Pelos detalhes macabros, soberba de impunida dedo mandante e desdobramentos em cascata, o ato foi também um erro estratégico pantagruélico, que arrisca desarrumar, pelo menos por ora, o cenário geopolítico idealizado por Donald Trump para o Oriente Médio. A saber, a consolidação de um bloco formado por Estados Unidos + Israel + Arábia Saudita + Emirados Árabes Unidos, todos contra o Irã.

Ainda há incontáveis segredosa serem esclarecidos, mas o mistério central parece desvendado. A julgar pelas revelações liberadas a conta-gotas pela Turquia, todas as pegadas apontam para a Casa Real dosSaud em Ri ad. Mais especificamente para ame sado príncipe herdeiro Mohammed bin Sal man(MBS).Comres pingos desconfortáveis no Salão O valda Casa Branca devido ao envolvimento pessoal de Trump com MBS, complementar à relação institucional entre os dois países aliados. Os cínicos dirão que a execução deKhashoggi só se tornou cause célèbre por diferir em brutalidade da repressão cotidiana em uso no reino saudita; ou pelo fato de a vítima ter si doum colunista de projeção internacional do“Washi ng tonPost ”, em vez de iemenitas anônimos que há três ano semeio morrem como moscas sob bombardeios liderados pela Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, com material bélico fornecido pelos Estados Unidos. Sabe-se que não existem escoteiros na geopolítica do Oriente Médio. Interesses ocidentais sempre conviveram com execuções, decapitações e chibatadas no reino dos Saud. E truculências contra dissidentes no exterior, para sefotografado rem toleradas, precisavam apenas se manter abaixo de uma linha vermelha de visibilidade. Tudo isso derreteu quando jornais turcos favoráveis ao presidente Recep Erdogan começaram a informar ao mundo o que teria ocorrido em Istambul —ou seja, fora das fronteiras geográficas sauditas. Pior, no interior do consulado saudita, portanto sob ordens, execução e responsabilidade única da monarquia em Riad. Resumidamente, ase quência de fatos noticiados começa no dia do crime, como desembarque no aeroporto doque ser iauma e quipede 15 sauditas( inclusive um especialista em autópsias), enviados para atarefa. O grupo cruzou abarreira policial do consulado às9h55m.E Khashoggi foi fotografado entrando no prédio às 13h14m, para retirar o atestado de divórcio que lhe permitiria casar comano iva turca. Mas era uma arapuca. Sete minutos e poucos segundos depois, ele estava morto. Fitas de áudio comprovariam que foi torturado, teve os dedos decepados ainda em vida, foi sedado, morto e esquartejado — ou em ordem invertida. Dois veículos suspeitos deixaram o consulado no mesmo dia —um em direção a uma floresta nos arredores de Istambul, o outro seguiu rumo à cidade de Yalova.

Um dos integrantes da equipe matadora foi saindo de um hotel com uma mala extragrande. Ele seria Maher Abdulaziz Mutreb, membro da comitiva que acompanhou o príncipe saudita numa viagem de grande êxito midiático pelos Estados Unidos, em abril último. Naquelas três semanas de encantamento mútuo por cidades americanas, MBS foi cortejado por empresários, políticos e parte da mídia como um promissor reformista destinado a trazer o seu país para a modernidade. Vale mencionar que entre seus interlocutores de maior peso estava Jeff Bezos, hoje o homem mais rico do mundo (fortuna pessoal de US$ 150 bilhões), criador da A maz on(va lorde mercado, US $1 trilhão) e, ironia da história, do nodo conceituado “Washington Post” onde o morto era colunista. Outros três integrantes do grupo seriam agentes de segurança do príncipe. O médico-legista, cargo de confiança no Ministério do Interior, teriaestatura para só receber ordens domai salto escalão do poder saudita. E um suspeito deter participa dodo crime, o tenente da Força Aérea Real Meshal Saad Al-Bostani, foi dado como morto num acidente de trânsito ocorri doem Ri adna semana passada. Acada dia, novos fatos eversões. Pela versão saudita, liberada na noite de sexta-feira, há 18 implicados, já presos, e a responsabilidade final deve ficar com o general Ahmed al-Assiri, vice-diretor dos serviços de inteligência e arquite toda guerra no Iêmen. Exonerado. Omito do surgimento de um jovem herdeiro liberal em país de regime fechado costuma seduzir o Ocidente, sobretudo quando este país tem relevância estratégica ou econômica. Raras vezes, porém, o roteiro acompanha as expectativas, até porque é pouco usual um recém-chegado ao poder abrir mão voluntariamente de suas rédeas. O jornalista britânico Anshel Pfeffer lembra que Basharal-Assadt inha 34 anos(u mamais doque MBS) quando o pai lhe entregou a Síria. Usava a internet —era moderno, portanto — e formado em universidade londrina. Explicava sua opção por Oftalmologia por não gostar de ver sangue, e sua bela mulher inglesa adornava as capas de revistas europeias. Deu no que deu. Outros exemplos não faltam na região. Mohammed bin Salman foi designado como seu sucessor pelo atual rei Salman, que está com 82 anos, já teve dois derrames e sofre de Alzheimer. Caso o assassinato do jornalista não altere a narrativa, MBS será o primeiro da terceira geração dos Saud a ocupar o trono. Suas relações com os Estados Unidos são estreitas: recebeu treinamento do FBI, foi condecorado pela CIA coma medalha George Te net, em 2016, em reconhecimento aseu“excelente desempenho no campo do contraterrorismo e sua contribuição ilimitada pela paz e segurança mundiais”.

O problema são os fatos, sempre eles, tão incômodos — tanto para ele como para Donald Trump.

O mito do surgimento de um jovem herdeiro liberal em país de regime fechado costuma seduzir o Ocidente