O GLOBO – 21/10/2018

SILVIA AMORIM

Convidado por WhatsApp, grupo expõe sentimentos diante da eleição mais apaixonada, e sofrida, das últimas décadas

Com mediação de psicanalistas, sete pessoas, de 21 a 66 anos, debateram em São Paulo as angústias com o clima conflagrado da eleição. Brigas em família são comuns.

Aporta da sala ainda estava trancada na sede de um instituto de formação de saúde mental em São Paulo. Chovia na tarde de sexta-feira e não mais do que dez pessoas esperavam, num corredor, a chegada de psicanalistas que mediariam uma roda de conversa para angustiados com a eleição. Disparado dias antes por profissionais da entidade pelo WhatsApp, o convite para o evento era claro: “A situação política atual tem mexido com você? Você se sente desamparado, preocupado? Está enfrentando conflitos com a família, colegas e amigos? Venha participar da nossa roda de conversa”.

Numa sala pequena, um sofá e algumas cadeiras improvisaram a roda de diálogo gratuita. Eram sete “pacientes” entre 21 e 66 anos de idade e três psicanalistas. A troca de histórias, angústias e preocupação mal havia começado e a pergunta que mais se ouviu em duas horas de conversa apareceu: como lidar com o clima conflagrado em que se tornaram, nesta eleição, o ambiente de trabalho, a mesa do almoço em família, o bar com os amigos e os grupos nas redes sociais e no WhatsApp? Sentada ao lado de uma das mediadoras, uma jovem de 30 e poucos anos, com a voz calma e baixa, colocou na roda o desconforto que sentia no grupo familiar com a discussão eleitoral.

—O mais difícil hoje é que em vez de o outro usar um argumento racional ele começa a usar piadas ou frases jocosas para algo que você considera sério seja qual for sua tendência política. Isso tira o nosso eixo, machuca —expôs. A reflexão da desconhecida encontrou amparo do outro lado da roda em um psicólogo de 31 anos. —Sinto o mesmo. Aquele conselho para não se preocupar porque vai dar tudo certo tem me deixado mais angustiado. Dei um tempo das redes sociais —disse. Os desentendimentos familiares por questões eleitorais começaram a pipocar em série. Uma das mediadoras, então, pediu a palavra para ajudar na condução do dilema. Segundo ela, nunca é fácil lidar com posições divergentes, ainda mais quando vêm daqueles que amamos, e, às vezes, com agressividade —o que deixa a tarefa ainda mais difícil.

—Fica um pouco a impressão de que nem na família encontramos proteção —ponderou. Bingo! As pessoas assentiam com a cabeça, concordando com a especialista, quando uma das mais velhas do grupo, uma professora de 66 anos, desanuviou a dinâmica: —Inclusive tão dizendo que esse fim de ano não terá amigo oculto.

Todos caíram na gargalhada . Alguém brincou que não ia dar tempo de fazer as pazes com os parentes e amigos até as festas e que, portanto, talvez fosse mais apropriado fazer este ano um “inimigo oculto”. Grupo recomposto, a roda segue e chega a hora de uma universitária de 21 anos falar. Dizendo-se confusa, a mais nova da turma contou que estava enfrentando problemas de concentração na faculdade por conta da disputa eleitoral. —Eu leio tudo sobre o Bolsonaro, pessoas interpretando o Bolsonaro, entrevista com assessores dele, um negócio meio masoquista. Não consigo mais ler um livro. Meus trabalhos na faculdade estão acumulando —relatou. Uma sexagenária acompanhava a discussão quando, de repente, a roda de conversa enveredou para o debate político. Alguém disse que o futuro poderia ser “escuro”.

—Mas o futuro, escuro ou não, não depende só da gente? —perguntou. Outro retrucou: —Não. Depende do presidente que for eleito. —Só do presidente? Tá bom —disse a idosa. O clima esquentou. Uma das psicanalistas interveio, pedindo que voltassem a falar das experiências pessoais e não das diferenças políticas.

A sexagenária compartilhou a receita que estava usando com a família e amigos: não me mandem mensagem sobre a eleição. —Está funcionando — disse ela.

Alguém completou que há uma busca desesperada, nesse debate eleitoral, por saber quem está certo e quem está errado. e não se consegue ouvir o outro com abertura para dizer que, embora não concorde com suas ideias, aceita seu ponto de vista.

Foi quando, faltando menos de 15 minutos para o fim da conversa, apareceu na roda a primeira referência à palavra “respeito”. Veio da professora, a mesma da piada sobre o “amigo oculto”, a última a falar: —Tem uma coisa que é fundamental que é o respeito. Ele é o caminho para enfrentar tudo isso. Respeito e serenidade. As psicanalistas agradeceram a presença de todos e encerraram a conversa.