O GLOBO – 21/10/2018
CLAUDIA ANTUNES
Na esfera pública dos Estados Unidos, tal como refletida nas redes sociais, não há uma polarização direita versus esquerda, como sugere o senso comum. A polarização é entre uma direita fechada em seu próprio “ecossistema midiático” e o resto da população, que busca e compartilha informações de fontes diversificadas, do centro à esquerda, incluindo a imprensa tradicional.
A afirmação é de Youchai Benkler, codiretor do Centro Berkman Klein para a Internet e a Sociedade da Escola de Direito da Universidade Harvard. Benkler é coautor do livro recém-lançado “Network propaganda – manipulation, disinformation and radicalization in American politics” (Propaganda em rede – manipulação, desinformação e radicalização na política americana), fruto de uma pesquisa que por dois anos traçou o caminho na internet aberta de 4 milhões de notícias (incluindo as falsas). O livro pode ser baixado de graça na internet.
— A boa notícia é que nem todo mundo vive na era da pós-verdade, como se imagina. Ainda temos cerca de 65% da população nos Estados Unidos que vive num ecossistema midiático que está mais ou menos ancorado no jornalismo profissional — disse Benkler em entrevista por telefone ao GLOBO. Ele afirma que as conclusões não podem ser transpostas para outros países, mas acena com a realização em breve de uma pesquisa idêntica no Brasil. — Infelizmente vai ser muito tarde para as eleições atuais.
Qual foi a metodologia da pesquisa para o livro?
Temos uma plataforma de pesquisa que ingere notícias da internet aberta, cerca de um milhão por dia, e nos permite ir atrás de histórias a partir de um termo de busca. Os resultados vão para uma base de dados que possibilita analisar como uma história está ligada a outras, quem a compartilha no Facebook, quem a tuíta. O livro cobre de abril de 2015, início da campanha para a eleição presidencial de 2016, a janeiro de 2018, primeiro aniversário do governo de Donald Trump. Na campanha,
Vocês analisaram apenas notícias?
Não, qualquer tipo de conteúdo que mencionasse os temas que buscamos. Analisamos apenas os links compartilhados, não as postagens pessoais.
Quais foram as conclusões?
A ideia de que a tecnologia da informação em si está criando uma polarização direita versus esquerda é falsa. O que temos nos EUA é uma polarização assimétrica, na qual a direita se insulou em seu próprio ecossistema midiático e o resto está em um ecossistema mais amplo, que inclui tanto a esquerda quanto o centro e a chamada imprensa tradicional. Nesse grupo sites de tendências mais marcadas têm uma audiência cruzada com a da imprensa centrista.
A circulação de notícias falsas é a mesma nos dois ambientes?
A expressão “fake news” se refere originalmente a empresascommotivaçãocomercial que são caçadoras de cliques. Passou a ser usada para a propaganda política intencionalmente enganosa. Os dois tipos são mais prevalentes na direita do que na esquerda, porque em geral a direita ocupa um ecossistema onde não há mecanismos de checagem de informação, pois o objetivo é garantir que a história se conforme à identidade do público. Na esquerda, como os usuários distribuem sua atenção de maneira mais ampla, e ocupam um ecossistema midiático que tem muita checagem de dados, as notícias falsas, seja qual for a fonte, não sobrevivem nem se espalham com a mesma intensidade.
O senhor traça a origem dessa divisão à criação da Fox e à desregulamentação do mercado de mídia. O que aconteceu?
A partir do final dos anos 1980,ainfraestruturatécnica, o quadro legal e os alinhamentos políticos eram tais que, começando pelos talk shows de rádio, a direita encontrou um mercado lucrativo ao fomentar a indignação contra o establishment. Em 1996 surgiu a Fox News e houve uma desregulamentação que permitiu a concentração do mercado de TV e de rádio, usada para criar um sistema midiático de propaganda de costa a costa. Quando os sites comerciais de direita surgiram, a partir de 2007, já existia um ecossistema extremamente polarizado, movido pela raiva.
Por que a esquerda não usou a mesma tática?
É uma pergunta em aberto. Mas é preciso considerar que a fatia da população que lidera a indignação é mais branca, mais velha e cristã, enquanto a coalizão democrata é mais diversa, mais segmentada. Na direita você tem um mercado grande e relativamente homogêneo. Não há uma estrutura de público equivalente na esquerda para sustentar o mesmo lucro.
Se o “New York Times” mostra que Trump ficou rico com fraudes fiscais, isso chegará às pessoas no ecossistema da direita?
Não. Se elas chegarem a ver essainformação,elaviráfiltrada pelos veículos nos quais confiam, que vão dizer que é uma mentira. Há entre um quarto e um terço da população para o qual uma reportagem como essa não significa nada, ou é uma prova de que a mídia tradicional está lá para pegar Trump. Uma maneira de medir o tamanho desse público é uma pesquisa que mostra que 51% dos republicanos, ou um quarto da população em geral, consideram que a imprensa é inimiga do povo. Se você examinar outros itens como a baixa confiança na mídia, esse estrato chega a 65% dos republicanos, um terço da população geral.
O que esse quadro significa para o jornalismo?
A boa notícia é que nem todo mundo vive na era da pósverdade, como se imagina. Temos cerca de 65% da população que ainda vive num ecossistema midiático mais ou menos ancorado no jornalismoprofissional.
A interferência russa foi determinante para a eleição de Trump?
Há muita evidência de que tentaram interferir, mas essa intervenção dificilmente mudou o resultado. Todas as ações diretamente associadas aos russos ocorrem em temas que já haviam sido explorados pela propaganda de direita por dias ou semanas. Nas intervenções documentadas na mídia social, eles pegaram umbondeemmovimento,replicando em pequena escala o queacampanhadeTrumpfez em sua estratégia de propaganda no Facebook. Nas intervenções maiores, que foram as invasões dos computadores do Comitê Nacional Democrata e dos e-mails de John Podesta, que dirigia a campanha de Hillary Clinton, o que constatamos é que houve maior volume de notícias sobre o uso por Hillary de um servidor privado quando era secretária de Estado do que sobre o conteúdo dos emails roubados pelos russos.
Suas conclusões para os EUA se aplicam a outros países?
A lição básica do nosso estudo é que não dá para assumir, como faz a maioria das análises atuais, que o Facebook é o problema e as bolhas são o problema em todo lugar. Se alguém quiser entender como os ecossistemas midiáticos funcionam no Brasil, precisa olhar também para o que acontece na TV e no rádio. Você pode encontrar similaridades com a situação americana ou não. Meu grupo de pesquisa está começando a planejar estudos em outros países, usando nossa plataforma. E em todos o sistema político e a estrutura da mídia são fatores a considerar, além da análise de dados.
Pretendem vir ao Brasil?
Sim, mas infelizmente vai ser muito tarde para as eleições atuais.