O GLOBO – 21/10/2018
As explicação dadas pelo governo da Arábia Saudita sobre o assassinato do jornalista dissidente Jamal Khashoggi no consulado do país em Istambul causaram uma onda de incredulidade em vários países e organizações internacionais ontem. Apesar de autoridades de nações aliadas se declararem satisfeitas, a reação em várias capitais ocidentais foi considerar insuficientes os esclarecimentos e pedir investigações transparentes. Segundo a versão de Riad, Khashoggi morreu estrangulado após envolver-se numa “briga” com pessoas dentro do consulado, aonde fora no dia 2 de outubro buscar papéis necessários a seu casamento. Crítico feroz do governo do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, ele vivia autoexilado nos EUA desde o ano passado.
EUA: NEGÓCIOS DE US$ 110 BI
Até ontem, o governo saudita insistia que ele saíra do consulado pouco após entrar no prédio, embora a Turquia sustente — com base num suposto áudio —que o jornalista foi assassinado e depois, esquartejado por uma equipe enviada a Istambul para o crime. O presidente dos EUA, Donald Trump, aliado do regime saudita — que fechou negócios de compra de US$ 110 bilhões em armas americanas — e próximo de Bin Salman, disse em primeiro momento que as explicações sauditas eram críveis. Ontem, porém, reviu sua posição e disse “não estar satisfeito”. Ainda assim, cogitou que Bin Salman não esteja envolvido. Outros foram mais incisivos. “Condenamos este ato nos termos mais enérgicos”, disseram em nota conjunta a chanceler federal alemã, Angela Merkel, e seu ministro das Relações Exteriores. “Esperamos a transparência da Arábia Saudita sobre as circunstâncias de morte. (…) A informação disponível sobre os eventos no consulado de Istambul é inadequada.” Reino Unido, França, Holanda, Espanha, ONU e União Europeia seguiram no mesmo tom. Já a organização de direitos humanos Anistia Internacional tachou a versão saudita de tentativa de acobertamento de “um crime tenebroso”, e também pediu uma investigação independente como única forma de a verdade vir a tona. Por sua vez, a ONG Repórteres Sem Fronteiras disse, em comunicado, que “a versão oficial está claramente destinada a dissimular o essencial, a saber, que o crime atroz perpetrado contra um jornalista foi por ordem de um patrocinador estatal”.
JORNAL: ‘COMPLETA BESTEIRA’
Na Turquia,autoridadeslocais afirmaram que os investigadores devem descobrir “em breve”oqueaconteceucomocorpodeKhashoggi,cujoparadeiro o governo saudita diz desconhecer. Segundo uma fonte revelou à agência Reuters, amostrasdeDNAdavítimaestão sendo obtidas. Um portavoz de Ancara afirmou que o paísrevelarátodaaverdadesobre o caso.
A Arábia Saudita nega que a cúpula do governo do país soubesse da operação que resultou na morte de Khashoggi. Nos EUA, o jornal “Washington Post”, onde o jornalista era colunista, considerou a nova versão de Riad “uma completa besteira”.
Para analistas, a versão saudita e as ações tomadas em Riad têm o objetivo claro de preservaropríncipeherdeiro,que governa de fato o país. “A decisão de demitir membros do círculo mais próximo do príncipe Mohammed bin Salman busca demostrar uma prestação de contas real no processo e distanciar o príncipe herdeiro do assassinato”, disse a consultoria Eurasia Group.