O GLOBO – 23/10/2018

NATASHA SINGER E NICHOLAS CONFESSORE – THE NEW YORK TIMES
Em meio a um coro de reclamações dos conservadores contra as redes sociais Facebook ,Twitter e YouTube —que, ao tomarem medidas para coibir conteúdo viral enganoso, têm sido acusadas de hostilidade em relação a posições de direita —, consultores do Partido Republicano começaram a construir um universo digital paralelo em que seus clientes políticos definem as regras. Já nesta campanha para as eleições legislativas de 6 de novembro, dezenas de milhares de americanos estão usando aplicativos conservadores alternativos às mídias sociais mais conhecidas.

Uma startup criou um aplicativo para o braço de lobby da Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês) que foi baixado mais de 150 mil vezes. Partidários do presidente Donald Trump podem baixar um aplicativo do Great America, um Comitê de Ação Política pró-Trump, ou o America First, aplicativo da campanha de Trump em 2016 que continua parcialmente ativo. Muitos apoiadores do senador Ted Cruz, do Texas, usam o Cruz Crew, um aplicativo criado para sua campanha de reeleição.

Os aplicativos entregam notícias selecionadas no que são na prática plataformas privadas de mídia social, livres das restrições e diretrizes de conteúdo impostas pelas gigantes do Vale do Silício. Alguns permitem que os apoiadores comentem as postagens ou contribuam com seus próprios posts, com menor risco de que suas mensagens sejam consideradas ofensivas ou abusivas.

MAIS POLARIZAÇÃO

Essas miniplataformas também utilizam o alcance poderoso de redes sociais como o Facebook e o Twitter, mesmo competindo com elas. Alguns aplicativos dão a opção de postar no Twitter ou no Facebook mensagens que são redigidas pelas campanhas, combinando a espontaneidade aparente das mensagens orgânicas nas redes sociais com a disciplina da publicidade paga.

Os proponentes desses aplicativos os apresentam como comunidades duráveis que oferecem aos conservadores alternativas viáveis às grandes redes sociais.

—As pessoas de centrodireita sentem que as grandes redes sociais, como Facebook e Twitter, não são simpáticas a seus pontos de vista —disse Thomas Peters, executivo-chefe da uCampaign, uma startup em Washington que desenvolveu os aplicativos NRA, Great America e Trump Campaign. —Queremos criar um espaço seguro para pessoas que compartilham um ponto de vista, que acham que as redes sociais abertas não são lugar para elas.

Fora do alcance do público em geral, no entanto, as plataformas podem intensificar a polarização política e a divisão social, ou disseminar a desinformação. Qualquer um nos EUA pode baixar aplicativos do uCampaign, disse Peters, mas eles permitem que a direção de uma campanha impeça que intrusos postem mensagens que desafiem as posições oficiais.

LAÇOS SUSPEITOS

Dan Backer, conselheiro do Comitê de Ação Política Great America, disse que a política de usuários do aplicativo proíbe comentários abusivos e aqueles que incitam atividades criminosas.

—Mas não queremos entrar nessa de tentar censurar as opiniões políticas das pessoas —acrescentou.

Os candidatos democratas também usam aplicativos para promover suas campanhas, mas os principais aplicativos eleitorais atualmente usados na esquerda são voltados especificamente para voluntários que trabalham nas campanhas, sem a ambição de criar comunidades virtuais duradouras.

Os aplicativos estão sendo implantados no momento em que grandes empresas de tecnologia, como Facebook e Google, estão sob escrutínio a respeito de como compartilham e protegem os dados dos usuários. Tanto a uCampaign quanto a WPA têm laços com a AggregateIQ, uma empresa de tecnologia política sediada no Canadá. A AggregateIQ está sob investigação do governo britânico por suposto envolvimento na manipulação de dados e conexões com a Cambridge Analytica, que usou informações de milhares de usuários do Facebook para traçar perfis políticos dos eleitores.