O GLOBO – 24/10/2018

ANDRÉ DUCHIADE

Especialista em Turquia Moderna da Universidade de Graz, na Áustria, e professor visitante da USP, Karabekir Akkoyunlu entende que o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, não busca principalmente justiça no caso de Jamal Khashoggi. Segundo ele, o compatriota deseja se aproveitar da crise provocada pelo assassinato do jornalista para desgastar a imagem da rival Arábia Saudita perante os EUA, e promover o seu próprio país como uma alternativa mais previsível e civilizada.

O que a Turquia espera obter ao denunciar o assassinato de Khashoggi?

Todos podemos concordar que justiça não é a motivação principal de Erdogan. Ele não é um grande defensor da liberdade de imprensa. O que o motiva a dizer que a Turquia irá até o final em sua investigação é a rivalidade com a Arábia Saudita. Isso remete à Primavera Árabe, quando a Turquia apoiou a Irmandade Muçulmana em países como o Egito e a Síria. A Arábia Saudita vê a Irmandade Muçulmana como uma ameaça existencial ao regime, por sua natureza reformista ou revolucionária. O Qatar, por exemplo, que é aliado da Turquia, também foi acusado por Riad de nutrir simpatias pelo grupo. Um outro aspecto diz respeito a Jamal Khashoggi. Embora ele às vezes seja acusado de fazer parte da elite saudita, também foi visto como simpático à Irmandade. Há, portanto, uma rivalidade regional e ideológica.

A Turquia enfrenta uma crise econômica. Erdogan busca ganhos nessa área?

A crise econômica devese, em parte, a conflitos com o governo americano, que é aliado da Arábia Saudita, mas tem relação tumultuada com a Turquia. A estratégia de Erdogan é tornar mais difícil para os EUA apoiarem a Arábia Saudita na região e passarem a ver a Turquia como um parceiro mais confiável. Depois que Khashoggi desapareceu, um pastor americano preso havia dois anos na Turquia foi libertado, e Trump disse estar muito feliz.

Erdogan não envolveu diretamente o príncipe herdeiro saudita na acusação de assassinato. Por quê?

É difícil ter certeza, mas há negociações acontecendo atrás dos panos. A diretora da CIA, Gina Haspel, por exemplo, está na Turquia. Embora não tenha citado o príncipe Mohammed bin Salman, Erdogan afirmou ter certeza da sinceridade do rei Salman. Ele deixa, assim, as portas abertas em ambas as direções —para se aproximar de Bin Salman, mas também se afastar, se for necessário.

Não é irônico que o país que mais prende jornalistas se torne o defensor da vida de um jornalista?

É irônico e não é. Quando a Turquia, em junho de 2013, teve manifestações populares gigantescas, como havia no Brasil, com uma repressão policial brutal, Erdogan minimizava a brutalidade da sua polícia. Ao mesmo tempo, reclamava da brutalidade da polícia egípcia contra manifestantes. Erdogan tem uma abordagem tribal a respeito de quem ele protege. Ele usa a crise como uma oportunidade para melhorar a sua imagem internacional, para mostrar ao mundo que ninguém está limpo, e que pelo menos é mais civilizado. “Não torturo e nem esquartejo, só prendo; vejam como sou mais civilizado”, ele quer dizer.