O GLOBO – 29/09/2018

MARCELO ADNET

Era meu dia de relativa folga, já que só começaria a trabalhar à tarde. Dormir com qualidade é raridade e conferir o celular pela manhã, uma cotidiana ansiedade. Quando levanto pra ir ao ao banheiro de manhãzinha, verifico minhas mensagens e volto a dormir, se assim for possível. E anteontem não deu. Esfreguei os olhos e vi uma montagem com meu rosto ao fundo, acompanhada de um texto que, entre grosserias, diz que produzi um áudio imitando o candidato que está internado no hospital a fim de incriminá-lo.

Essa mentira,fabricada talvez pelo fato de eu fazer um tutorial de imitações de todos os principais candidatos à Presidência, não é novidade no meu dia a dia, dado o tom histérico que muitos adotaram nas redes sociais. Confesso que estou estranhamente acostumado a essa dinâmica tóxica. Mas os mais de 20 mil compartilhamentos desta publicação, fora as que surgiam e seespalhavamapartirdali,criaram a necessidade de um posicionamento da minha parte. A narrativa da minha própria vida era manipulada e distorcida, criando um personagem odioso, cuja opinião deve ser desmerecida. Os xingamentos se somavam a ameaças e se multiplicavam em bullying, assédio e desrespeito. Notei que ainda estava no banheiro, mas já havia me tornado, segundo postagens e comentários, um “bandido, vagabundo, imundo, imbecil, safado, sem vergonha”, além de outros adjetivos impublicáveis. E isso não é nada comparado às ameaças físicas que leio até o presente momento. Acredito que a maioria destas não se concretizariam no mundo real. Pois recebo carinho e respeito de quase todos quando compro cebola e batata no mercado em que se anuncia no microfone a promoção do momento. Mas nós, cariocas, sabemos que a violência política existe e mata. Eu deixava essas coisas passarem, mas a cavalgante perseguição e criminalização de cidadãos precisa ser combatida por todos nós, pois nosso silêncio é passaporte para que o Brasil se concretize como o palco de uma vergonha internacional. Não falo de candidatos ou partidos, mas de nossa capacidade como sociedade civil. Do direito de se expressar, questionar, debater e inclusive errar, sem que para isso seja necessário xingar, ameaçar ou cometer qualquer crime. Criou-se um ambiente tão tóxico que esquecemos que qualquer manifestação democrática é válida. Bato palma para quem ousa opinar em uma sociedade que persegue quem o faz. Leio que “artistas não devem dar opinião política, pois são desqualificados para tal”. Mas quem deve então? Arquitetos, engenheiros, motoristas, comerciantes, filósofos? Pra mim é simples: todos que quiserem podem e devem opinar. Assim como está resguardado o direito de quem não quer falar nada. No fim das contas, para mim foi melhor perder o dia, o sono e aguentar a enxurrada do que me encolher e sofrer em silêncio. Vejo surgir uma primavera multicolorida de posicionamentos e opiniões e isso é ótimo. Não podemos nos calar.