O GLOBO – 12/10/2018
MARK LANDLER, EDWARD WONG E ERIC SCHMITT Do New York Times
Para Donald Trump , que fez da Arábia Saudita o seu centro político no Oriente Médio, o possível assassinato de Khashoggi é uma crise diplomática iminente. Para seu genro, Jared Kushner , é uma questão mais pessoal.
Kushner foi quem mais cultivou no governo a relação com o líder saudita, o príncipe Mohammed bin Salman, o que tornou o herdeiro do trono um aliadochave no mundo árabe.
Kushner tomou o partido de Bin Salman quando o príncipe manobrava politicamente para se tornar o herdeiro de seu pai; jantou com ele em Washington e Riad; vendeu armas aos militares do país no valor de US$ 110 bilhões (R$ 413 bilhões); e até alimentou expectativas de que o príncipe aprovaria seu plano de paz entre israelenses e palestinos.
As alegações de que o jornalista foi morto por ordem da corte real saudita levantaram sérias dúvidas sobre a aposta de Kushner no príncipe. Bin Salman pode não ser o reformista capaz de correr riscos abraçado pelos Trump, mas um governante temerário, ainda “verde”, cujos poderes foram ampliados pelos laços com a Casa Branca. Assim, se sentiria confiante para pesar a mão em ações tanto em seu país quanto no exterior.
Agências de Inteligência americanas interceptaram comunicações de autoridades sauditas debatendo um plano para atrair Khashoggi de volta à Arábia Saudita e prendê-lo, diz um ex-funcionário sênior de Washington. Segundo ele, é inconcebível que tal plano fosse levado adiante sem a aprovação do príncipe. Se, por um lado, é possível que o plano envolvesse o assassinato de Khashoggi, por outro também faria sentido que a trama para atraí-lo ou sequestrá-lo tenha dado errado e resultado na sua morte.
Se ficar claro que Bin Salman ordenou o assassinato ou estava ligado a ele, haverá um forte clamor no Congresso. Empresários americanos ficarão muito embaraçados. E isso vai pôr Kushner, que já foi dono de um jornal, numa posição muito difícil.
Depois de uma semana em silêncio, a Casa Branca está aumentando a pressão sobre os sauditas. Na terça-feira, Kushner e John Bolton, conselheiro de Seguraça Nacional, falaram por telefone com o príncipe. O secretário de Estado, Mike Pompeo, também telefonou. Já Trump assinalou achar provável que os sauditas tenham matado Khashoggi e afirmou que ficará furioso se o assassinato for confirmado.
—Eu não ficaria nada contente —afirmou à Fox News. —Creio que, até agora, parece que aconteceu.