O GLOBO – 22/10/2018
JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS
A mentira tinha pernas curtas, não era essa de hoje que desfila rápida como se caminhasse com as pernas longuíssimas e pragmáticas da Gisele Bündchen. Havia delicadeza em sua prática. Mentia-se em prol da boa etiqueta social, na certeza de que a verdade machucava mais e, para o bem da grande festa da civilidade, devia ser mantida ao largo de certos salões. Éramos todos Tim Maia. Ninguém cheirava, bebia ou fumava. Mentia-se um pouco —mas, do Leme ao Pontal, quem não?
Mentiras sinceras eram reconhecidas como forma de amor. Pequenas porções de ilusão. Aplacavam a dor da traição, do pé na bunda. Era a mentira afetiva, com vergonha na cara, o me engana que eu gosto do “só a cabecinha”, do “essa roupa caiu bem em você”. A mentira que dizia seu nome, não se escondia atrás de apelidos ridículos e cheios de si como fake news. O amigo ou o inimigo estavam sempre com uma cara ótima. Precisamos tomar um chope hora dessas.
Na televisão, o coronel Pantaleão, a perna direita dobrada na cadeira de balanço, contava histórias de seu enfrentamento, no muque, contra saúvas com cabeças incandescentes ou touros bufantes de cinco chifres. Quando via surgir nos olhos do ouvinte um ar de incredulidade, Pantaleão virava-se para Terta, a santa esposa que acompanhava a narrativa, e perguntava com o dedo em riste: “É mentira, Terta?”. A digníssima, orgulhosa do cabra macho, confirmava a força do marido com um veemente “Verdaaaade!”.
Já houve esse tempo, o século em que as mentiras eram do tipo cristão, juntavam as pessoas e faziam rir no programa do Chico Anysio. Elas serviam à educação nacional. A mãe extremada, no anseio de alimentar bem seu petiz, amassava o arroz com feijão e traçava agraciosac oreografia em que acolher cheia da gororoba sobrevoava océ uda fantasia. Ao chegar perto do aeroporto, a goela do infante, a mãe sorridentemente enganatória pedia com voz fofa: “Abre aboca que chegou o aviãozinho”.
O aviãozinho, assegura Verissimo, foi a primeira mentira. A segunda foi a cegonha. Depois veio a que está grafitada nos muros: Não fui eu!
A pecha de mentiroso nunca era assacada com agressividade, tala certeza adulta de que todos mentiam e com alguma razão. Num mundo de cínicos ecéticos, quando Nelson Rodrigues estava liberado para o politicamente incorreto de dizer que haveria menos mentiras se as mulheres perguntassem menos, só as crianças se xingavam de mentirosas. Eram educadas pela lenda do Pinóquio moralista. Em 2018, a virtude da verdade é o Santo Graal.
Em plena civilização chefiada pelos robôs do WhatsApp, a mentira virou crime abominável e ficou fora do panteão de borogodós nacionais. Deixou o ambiente romântico do sambacanção, da trama interrogativa da novela das oito, da dificuldade filosófica em se distinguir a falsidade entre humanos. Sem mais nostalgia. Procura-se com prioridade desesperada o inimigo público número um da temporada. Quem espalhou o blefe do kit gay? Quem vai legalizar a tortura nas delegacias?
O crime mudou. Assaltante? Traficante? Abusador? Ora, tudo bem e nada contra! Procura-se, este sim, o difamador digital —embora algumas mentiras sejam tão absurdas que só o modismo em torno delas justifique alguém acreditar que possam carregar qualquer verdade. São mentiras de robôs. Eles não sabem o que é a boa, e tão humana, mentira deslavada.