Mais de uma década atrás, eu saía da universidade com um diploma em audiovisual e um propósito muito claro: comunicar com ética, responsabilidade e compromisso humano. Enquanto mergulhava nos princípios da comunicação e nos estudos sobre o rádio, a televisão e o cinema nacional, eu assistia de perto ao crescimento de outro fenômeno social: as redes sociais e os streamings, que mudaram para sempre a forma de contar histórias.
Fui de uma geração que frequentava bibliotecas, aprendeu a digitar em teclados físicos e organizava trabalhos de conclusão de curso no Facebook. Ainda assim, tinha certeza de que a base sólida de comunicação e pensamento crítico continuaria válida, não importando a plataforma ou a tecnologia. Afinal, no centro de tudo, sempre haveria gente querendo se comunicar.
Anos depois, me vi diante de outro desafio ao assumir a gestão de uma marca jornalística centenária, que havia acabado de completar a transição do papel para o ambiente digital. O setor jornalístico, assim como o audiovisual, sofreu abalos intensos com a velocidade dessas transformações. Diferente de outras ondas tecnológicas, as mudanças digitais atuais não deram ao jornalismo a janela de tempo necessária para assimilar e reagir.
Basta olhar para a trajetória dos veículos de comunicação: primeiro a imprensa escrita, depois o rádio levando a voz onde o papel não chegava, a popularização do vídeo com a televisão e, por fim, a internet, com seus milhares de formatos, redes, aplicativos e plataformas, sendo um verdadeiro mix de todas as possibilidades. Cada nova onda encurtou o tempo de adaptação e passou a exigir reações quase imediatas.
Ao participar das reuniões da Associação Nacional de Jornais (ANJ), encontrei algo surpreendente: concorrentes sentados à mesma mesa, dividindo aprendizados, compartilhando tecnologia e debatendo caminhos para garantir a sobrevivência de todos. O jornalismo de verdade não teme concorrência, porque torce para que mais pessoas tenham acesso à informação verificada, de qualidade e confiável.
Essa coragem de agir em conjunto foi o que impulsionou a criação de iniciativas como o Data Day, considerado hoje o maior evento de tecnologia e dados aplicados ao jornalismo no Brasil. Promovido pela ANJ, em parceria com Google, ESPM, Chartbeat e outros, o encontro reuniu, na sua terceira edição, profissionais, professores e executivos para discutir o futuro do jornalismo diante do poder transformador dos dados e da inteligência artificial.
Logo na abertura, nomes como Débora Huertas, Dalton Pastore e Marcelo Rech chamaram atenção para a importância de integrar o mercado anunciante, as redações e as áreas de audiência, construindo juntos modelos mais sustentáveis para a indústria. Ficou evidente que dados e inteligência artificial não podem ser vistos apenas como recursos técnicos, mas sim como motores fundamentais para garantir a relevância editorial, a saúde financeira e a inovação no ecossistema de notícias.
Entre os destaques do evento, Pedro Doria trouxe uma provocação essencial: a inteligência artificial pode acelerar rotinas, mas não pode se sobrepor à credibilidade jornalística. O case do Agregador de Pesquisas, apresentado por Wanderson Trindade e Camila Marques, mostrou como dados de audiência podem orientar escolhas editoriais sem trair a essência do jornalismo.
Outra discussão relevante veio do case Roma Sustentabilidade, que explorou como propósito, dados e resultados de negócios podem caminhar juntos. Já Fabiana Zanni, do Google, apresentou com clareza os desafios e oportunidades da IA no ecossistema de notícias. O Google, que há mais de 20 anos mantém parcerias com redações, trouxe exemplos práticos de tecnologias como o Pinpoint e o NotebookLM, capazes de acelerar a apuração e a organização de conteúdo sem perder a segurança e a transparência, incluindo iniciativas de marca d’água para garantir a origem de textos e imagens gerados por inteligência artificial.
No painel final, Lúcio Mesquita fez um alerta que não pode ser ignorado. A inteligência artificial não substitui jornalistas naquilo que mais importa: checar fatos, ouvir pessoas, identificar contextos, selecionar o que realmente interessa ao público. Ele lembrou que o jornalismo precisa continuar sendo o filtro do ruído, e não seu amplificador. Se não houver editores fortes, prevalece a mentira, que só precisa de viralização para prosperar.
Outros cases trouxeram soluções inspiradoras, como o Clube O Globo, as experiências da Rede Gazeta, tendências até 2026 apontadas pela Innovation Media Consulting e exemplos internacionais de paywalls otimizados, personalização de conteúdo, checagem automatizada, avatares para coberturas de guerra e muito mais. Ainda assim, em todos os painéis ficou clara a mesma mensagem: sem qualidade editorial, sem responsabilidade ética e sem conexão humana, a tecnologia não basta.
O Data Day deixou evidente que dados e inteligência artificial não são um fim em si mesmos, mas instrumentos para ampliar o alcance, aprofundar a relevância e fortalecer a confiança do público. O jornalismo não pode se render a métricas vazias de cliques, nem terceirizar a inteligência editorial para algoritmos. Ainda existem bilhões de pessoas no mundo que precisam de informação confiável, e o maior desafio será encontrá-las e atendê-las sem perder valores fundamentais.
Essa reflexão também se conecta profundamente com a trajetória do ACidade ON, que carrega 120 anos de história, mas não abriu mão de se reinventar. Ao migrar do impresso para o digital e ao investir em dados, inteligência e colaboração, nossa marca mostra que tradição e inovação podem caminhar juntas. O compromisso com o jornalismo de qualidade permanece no centro, mesmo em um ambiente cada vez mais dinâmico, provando que credibilidade, relevância e coragem são ativos que resistem ao tempo e sustentam a confiança do público.
No fim das contas, dados e inteligência artificial podem apontar caminhos, mas cabe a nós fazermos as perguntas certas. Pelo que vejo na ANJ, tenho convicção de que quem vai salvar o jornalismo é o próprio jornalismo, porque a indústria está disposta a enfrentar esse desafio de forma única, coletiva e corajosa. Como disse Lúcio Mesquita, “a próxima grande onda do jornalismo é o jornalismo” — e esse talvez seja o maior e mais humilde desafio do nosso tempo.
Larissa Gonzalez é Gerente de Inteligência de Mercado e Mídias Digitais do portal ACIDADE ON