O GLOBO – 20/10/2018

MARIANE MORISAWA

Por 34 anos, Michiko Kakutani foi a todo-poderosa crítica literária do “New York Times”. Em 2017, a temida jornalista, famosa por suas resenhas ora duras e impiedosas, causou surpresa ao anunciar que estava se demitindo para poder escrever seu primeiro livro, “A morte da verdade —Notas sobre a mentira na Era Trump”, recém-lançado no Brasil pela editora Intrínseca, um estudo sobre a perda de importância da razão e dos fatos nos EUA de hoje. Oqueamotivouapassarpara o outro lado foi a eleição e o primeiro ano de Donald Trump à frente da Casa Branca. “Estou feliz também de reconquistar os simples prazeres da leitura, sem ter de analisar e anotar tudo que leio”, diz a escritora estreante. Na entrevista ao GLOBO, ela trata de temas como totalitarismo e o papel da imprensa em tempos de fake news”. Leia, a seguir, os principais trechos.


Quando sentiu que a verdade estava morta?

Tendências sociais e cultuais que alimentaram o ataque à verdade vêm se infiltrando na cultura ocidental há décadas, incluindo o apagamento da fronteira entre noticiário e entretenimento, o crescente tribalismo da política — com esta polarização levando as pessoas a viverem em silos cada vez mais estreitos —, uma perda da confiança no conhecimento, nas provas baseadas na ciência e nos princípios iluministas da razão e do progresso.

Como interpretações do pós-modernismo tiveram influência neste processo?

O pós-modernismo cristalizou a ideia de que não há narrativas absolutas, que todas as verdades são parciais, fragmentadas e provisórias por serem filtradas pelos prismas de classe, raça e gênero. Nos últimos anos, tais argumentos foram sequestrados e caricaturados pela direita, como um esforço para sugerir que a mudança climática ou a teoria da evolução são apenas uma questão de opinião, que “fatos alternativos” podem ser invocados para apoiar suas políticas favoritas mesmo se distorcem a realidade.

Acha que é possível voltar a acreditar que os fatos são importantes?

As mentiras incessantes de Trump e seu ataque às instituições americanas, incluindo o judiciário, o FBI e a imprensa, despertaram alguns americanos para os perigos de um comandante-em-chefe mentiroso e de uma administração que regularmente opera com “fatos alternativos”. Repórteres investigativos têm feito um trabalho admirável revelando os muitos escândalos envolvendo o presidente e a interferência da Rússia na eleição de 2016. Você alerta para os riscos do totalitarismo. Chegou a pensar que algum dia os EUA estariam nesta posição?

Os americanos não estão sozinhos em sua suscetibilidade à demagogia e à política da autocracia. Polônia, Hungria e Turquia estão entre as muitas nações em que a democracia está sob ameaça crescente. As pessoas tendem a ser mais suscetíveis a demagogos durante períodos de incerteza, e o mundo está se debatendo com as rápidas mudanças trazidas pela tecnologia e a globalização. Preocupações com o trabalho e o futuro foram exacerbadas pela crise financeira global de 2008 e pela crise de refugiados . Políticos de direita, como Trump nos EUA, os promotores do Brexit no Reino Unido e a Frente Nacional da França, têm explorado esses medos por meio de mensagens racistas e antiimigração para apelar a preconceitos nativistas.

No Brasil também há candidatos dizendo-se “anti-establishment” e pregando o medo do outro. A eleição de Trump é responsável por isso? Trata-se mais de uma onda de populismo ao redor do mundo. Políticos de direita têm cinicamente apelado ao ódio e ao medo, atacando minorias e imigrantes, tentando deslegitimar oponentes como um bando “do mal” e atacando a imprensa e o sistema judiciário.

Você enxerga características de Hitler, Lenin e Mussolini em Trump. Em que sentido? Autocratas e projetos autoritários de direita e de esquerda empregaram táticas semelhantes para consolidar o poder: minar as instituições que protegem o estado de direito e suspender os sistemas de equilíbrio entre os três poderes. Por meio da demagogia, criam uma visão do nós contra eles e promovem frases cínicas como “todos mentem” ou “todos roubam”, que tira o ânimo do povo de participar do processo político.

Hoje, muitos se informam por memes ou redes sociais. Como lidar com essa nova realidade?

Os algoritmos designados para otimizar o tempo que um usuário passa numa plataforma, privilegiando a popularidade sobre a precisão, ajudam a espalhar “fake news” e teorias da conspiração. Os jornalistas, junto com educadores e bibliotecários, devem promover a educação sobre a mídia. É preciso saber avaliar as fontes de informação. Devemos julgar candidatos baseados na razão e nos valores do bom senso e do bem comum.