O presidente-executivo da Apple, Tim Cook, disse nesta quarta-feira (24), em Bruxelas, na Bélgica, que os dados dos usuários de serviços digitais são coletados e utilizados como “armas com eficiência militar” pelas empresas para aumentar o lucro, em uma clara ação de “vigilância”. O executivo não citou empresas concorrentes nem demais gigantes de tecnologia, mas o recado tem como principais endereços as sedes do Facebook e do Google, envolvidas em escândalos de vários tipos, como o vazamento de dados de milhões de pessoas, e conhecidas por adotarem um modelo de negócios que direciona propagandas e conteúdos a partir de informação dos usuários. Hoje, afirmou, existe um “complexo industrial de dados”.

“O desejo de colocar os lucros acima da privacidade não é novidade”, disse Cook na 40ª Conferência Internacional de Proteção de Dados e Comissários de Privacidade, no Parlamento Europeu. “Nossa própria informação, do cotidiano ao profundamente pessoal, está sendo transformada em arma contra nós com eficiência militar”, afirmou a uma plateia repleta de reguladores de privacidade, executivos e outros participantes do evento, informou a Reuters. “Não podemos relevar as consequências. Isto é vigilância. E o armazenamento de dados pessoais serve apenas para enriquecer as empresas que os coletam.”

Cook se mostrou favorável às novas legislações de proteção de dados, como o GDPR (General Data Protection Regulation), que entrou em vigor na Europa em maio deste ano. O executivo disse ainda que a Apple apoiou uma lei federal de privacidade nos Estados Unidos e elogiou o compromisso da fabricante do iPhone de proteger os dados e a privacidade dos usuários. “A verdade é que poderíamos ganhar muito dinheiro se rentabilizássemos o nosso cliente – se o nosso cliente fosse o nosso produto. Nós decidimos não fazer isso”, destacou.  

O presidente-executivo da Apple criticou a disseminação de desinformação na internet, citando o ex-juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos Louis Brandeis que, em um artigo da Harvard Law Review de 1890, alertou que a fofoca não era mais o recurso dos ociosos e perversos, mas se tornara um comércio. “Esses fragmentos de dados … cada um inofensivo o suficiente … são cuidadosamente reunidos, sintetizados, comercializados e vendidos”.

Cook disse que os algoritmos, uma ferramenta importante para os concorrentes, estão transformando preferências inofensivas em convicções rígidas. O líder da Apple expressou alarme sobre a retórica política divisora que prolifera nas mídias sociais e atores e governos desonestos que usam algoritmos para “aprofundar as divisões, incitar a violência e até mesmo minar nosso senso comum do que é verdadeiro e do que é falso”.

Ao comentar os avanços em inteligência artificial, muitas vezes defendida como arma contra os problemas nas redes sociais, Cook ressaltou que, para ser realmente inteligente, esse recurso “tem que respeitar os valores humanos”, incluindo privacidade. “Se erramos nisso, os perigos são grandes. Nós podemos atingir, ao mesmo tempo, uma boa inteligência artificial e ótimos padrões de privacidade. E essa não é somente uma possibilidade, é uma responsabilidade.”

Os usuários, reforçou Cook, devem sempre saber quais dados estão sendo coletados e para que estão sendo coletados”, disse o executivo. “Esta é a única maneira de capacitar os usuários a decidir qual coleta é legítima e qual não é. Qualquer coisa menos é uma farsa”, afirmou. “Agora, mais do que nunca – como líderes de governos, como tomadores de decisão nos negócios e como cidadãos – devemos nos fazer uma pergunta fundamental: em que tipo de mundo queremos viver?”.

Leia mais em:

https://br.reuters.com/article/internetNews/idBRKCN1MY26B-OBRIN

https://www.telegraph.co.uk/technology/2018/10/24/apples-tim-cook-takes-aim-google-facebook-weaponised-data/

https://www.washingtonpost.com/world/europe/apples-tim-cook-delivers-searing-critique-of-silicon-valley/2018/10/24/5adaa586-d6dd-11e8-8384-bcc5492fef49_story.html?noredirect=on&utm_term=.e68e785bbb58