O GLOBO – 12/10/2018
A Arábia Saudita viu aumentar apressão internacional para esclarecer o paradeiro do jornalista e dissidente exilado Jamal Khashoggi, desaparecido há dez dias, inclusive por par tedos Estados Unidos, com quem mantém uma aliançachave. O colaborador do “Washington Post” sumiu depois de entrar no consulado saudita em Istambul, na Turquia, ondes e apresentou afim de buscar um documento necessário para se casar com uma mulher turca.
Há suspeitas de que ele tenha sido assassinado por ser um contundente crítico do governo do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, embora o reino negue qualquer participação no caso.
Sob forte pressão interna na imprensa e no Congresso — onde senadores de um grupo bipartidário lhe enviaram uma carta pedindo uma investigação — o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou ontem que agentes americanos trabalham no caso com Ancara e Riad.
RESISTÊNCIA INTERNA
As acusações contra a Arábia Saudita forçaram o republicano a adotar um tom mais duro do que o habitual com o reino na questão dos direitos humanos.
— Estamos olhando isso muito, muito a sério. E não gosto nada disso — disse Trump, que, no entanto, foi desmentido por uma fonte diplomática turca sobre a participação americana nas investigações.
Khashoggi se exilara em 2017 nos EUA, e sua noiva, Hatice Cengiz, pediu ajuda a Trump sobre o caso. O embaixador saudita nos EUA foi chamado a Riad, e o Departamento de Estado espera explicações na sua volta.
Entretanto, Trump sinalizou que não está disposto a adotar sanções que possam prejudicar os investimentos sauditas nos EUA, sobretudo os bilhões de dólares de acordos de venda de armas fechados na sua viagem a Riad, que foi também a sua primeira ao exterior na Presidência.
— Eu não gosto da ideia de parar um investimento de US$ 110 bilhões para os EUA, porque sabe o que eles vão fazer? Pegar esse dinheiro e gastar na Rússia, na China ou em algum outro lugar — disse Trump. — Há outra coisas que podemos fazer.
A posição do presidente não ecoou bem no Congresso. Bob Corker, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, disse que se ficar provado envolvimento do governo saudita no desaparecimento de Khashoggi haverá “enormes mudanças” no relacionamento entre Washington e Riad.
— Terá de haver significativas sanções nos mais altos níveis —ameaçou, acrescentando que , caso estivesse sendo debatida a esta altura, a venda de armas para a Arábia Saudita não passaria no Congresso.
Trump vem trabalhando para manter estreitos laços com o reino, num esforço para isolar o Irã, enquanto os EUA apoiam a campanha liderada pelos sauditas contra rebeldes no Iêmen, que, segundo relatório da ONU, já matou milhares de civis e desencadeou uma crise humanitária. Entretanto, muitos congressistas, incluindo republicanos, já questionam o apoio dos EUA aos ataques sauditas na guerra iemenita. A legislação americana prevê que grandes exportações de equipamento militar podem ser bloqueadas pelo Legislativo. Há um processo informal pelo qual algumas figuras-chave do Senado, incluindo o presidente da Comissão de Relações Exteriores e sua atual contraparte democrata, podem suspendê-las.
PRESSÃO BRITÂNICA E TURCA
Por sua vez, o chanceler do Reino Unido, Jeremy Hunt, advertiu ontem as autoridades sauditas de que a confirmação da sua responsabilidade no desaparecimento de Khashoggi teria “sérias consequências”. Já o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, alertou que seu país não ficará calado sobre o caso. Ancara afirma que Khashoggi jamais saiu do prédio do consulado saudita, e Riad diz o contrário.
Num sinal de que a reação ao possível envolvimento do governo saudita começa a se aprofundar, o empresário britânico Richard Branson anunciou a suspensão de investimentos de US$ 1 bilhão do grupo Virgin no reino. E vários órgãos de imprensa estão retirando apoio a uma conferência de investimentos em Riad no fim do mês. Colunistas e jornalistas de “Economist”, “CNBC” e “New York Times” não mais comparecerão.