A mais recente movimentação do Facebook para tentar reduzir o impacto dos escândalos nos quais está envolvido é, segundo analistas, uma forte campanha de relações públicas. A iniciativa tem várias frentes – incluindo a contratação do ex-vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg como diretor de assuntos globais – e promete mostrar com transparência o esforço da companhia para superar seus infindáveis problemas, muitos deles comprometedores à democracia. O problema é que a ação parece repetir todas as promessas anteriores, permanecendo apenas no marketing, sem a devida profundidade. O principal indicativo disso, conforme observadores, é a continuidade do desprezo da rede social em relação ao jornalismo.
Essa é, por exemplo, a sensação do veterano jornalista Robert Hackett, colunista da revista Fortune, em relação à Sala de Guerra montada pela rede social para o combate a notícias falsas nas eleições deste ano, como a do Brasil e a dos Estados Unidos (legislativas, em novembro). Em um dos prédios da sede do Facebook em Menlo Park, na Califórnia (EUA), especialistas de 20 equipes diferentes da companhia – entre engenheiros da computação, pesquisadores e integrantes do time legal da empresa – trabalham freneticamente contra a desinformação.
Hackett, entretanto, constatou em texto produzido pelo jornalista Jonathan Vanian, também da Fortune, uma contradição que revela o quanto a intensa atividade na trincheira criada pelo Facebook está, na verdade, limitada às preocupações da própria empresa. Samidh Chakrabarti, diretor de eleições e engajamento cívico da companhia, enalteceu ao repórter o fato de que manter a equipe na mesma sala, “cara a cara”, permite uma melhor comunicação e a rápida tomada de decisões. Nathaniel Gleicher, chefe de política de segurança cibernética do Facebook, entretanto, informou ao jornalista que a empresa não planeja convidar colaboradores de outros grupos do Vale do Silício, como o Twitter e o Reddit, para ocuparem assentos na sala. É mais fácil para esses grupos colaborarem “virtualmente” em vez de fisicamente, disse o executivo.
“A sala de guerra do Facebook parece, para este colunista, como um golpe de relações públicas. É uma reminiscência dos centros de fusão de segurança cibernética que os bancos e outras empresas montaram para deslumbrar os visitantes”, avaliou Hackett. “As paredes desta sala se estendem muito além de Menlo Park. Pergunte a qualquer jornalista”, assinalou. Hackett citou recente editorial do jornal The New York Times para demonstrar, a partir da relação com o jornalismo, como rede social está no sentido contrário a caminhos que realmente podem ser mais eficazes diante de problemas como desinformação, manipulação política, apologia ao ódio, assédio, falta de privacidade, fraudes em métricas etc.
O texto do jornal nova-iorquino diz que o Facebook confia efetivamente nos jornalistas como um exército de moderadores de conteúdo terceirizados não-oficiais, não remunerados, ajudando a erradicar desinformação e propaganda mal-intencionada. Empresas como o Facebook, continua o diário, “têm todas as ferramentas a sua disposição e uma responsabilidade profunda de encontrar exatamente o que os jornalistas encontram – e, no entanto, claramente, não o fazem”.
Ilusão do vídeo online
A forma exagerada como o Facebook investe nos mais diferentes segmentos digitais, olhando apenas para a sua máquina registradora, produz exemplos práticos dos danos que a empresa causa ao jornalismo. Um deles resulta da política de vídeos da rede social. Por anos, a empresa firmou e manteve parcerias com inúmeros produtores de conteúdo, prometendo alto e rápido retorno financeiro. Nesse período, conforme denúncias, insuflou métricas de audiência – segundo alguns anunciantes em até 900% –, o que é rechaçado pela companhia. Mesmo que não tenha fraudado os percentuais de engajamento, relata a revista The Atlantic, os incentivos da empresa ao vídeo alteraram o mercado de anúncios online como um todo.
“As empresas de mídia tentaram desesperadamente fazer o que o Facebook queria, muitos tomaram a decisão desastrosa de fazer um “giro ao vídeo”, demitindo repórteres e editores às dúzias. E, informa a publicação, quando ficou evidente que o retorno não viria, algumas empresas retrocederam. Na sequência, vieram centenas de demissões de profissionais que estavam envolvidos na produção de “vídeo original”.
A The Atlantic estima que as empresas norte-americanas de mídia demitiram mais de 350 pessoas entre 2016 a 2018. O número não inclui os jornais locais que reduziram as equipes enquanto perseguiam dólares em vídeo. Desde 2014, os periódicos dos Estados Unidos perderam mais de 7 mil empregos, encolhendo 15%, de acordo com o Bureau of Labor Statistics. O Facebook, destaca a revista, não é o único responsável pelas demissões, mas escreveu as regras, era o dono do campo e serviu como árbitro (talvez desonesto, como alegam alguns anunciantes que processam a companhia) para um jogo em que os publishers, já em dificuldades, estavam tentando ganhar, afirma a The Atlantic.
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