A questão não está mais no “como” desenvolver, mas no o quê construir, diz Geraldo Nascimento, editor-chefe de A Gazeta e Rádio CBN Vitória.
Há seis meses, fui impactado pela metodologia de construção de sistemas por vibe coding – a técnica que permite usar modelos de linguagem avançados (LLMs) para criar código apenas descrevendo o que se precisa em uma linguagem simples, enquanto a IA transforma as ideias em código executável. Não sou programador e não tinha noção do que era isso até produzir, em 3 minutos, um protótipo de uma ferramenta que elaborava um plano de redes sociais completo para uma reportagem. Na linguagem de cada rede que eu escolhesse, a ferramenta indicava imagens, palavras-chave e até os horários teoricamente mais adequados para as publicações. Foi um susto seguido de uma empolgação.
Olhando para o jornalismo, não me restam dúvidas de que a Inteligência Artificial pode ser uma aliada na construção de ferramentas de apoio ao trabalho. Aos avessos a esse recurso, não ignoro que há mau uso da tecnologia em muitos casos – casos graves e de difícil solução no curto prazo, como a sofisticação da mentira que tem voz, corpo e até “sentimento”. Concordo totalmente que esse tema precisa ser discutido eticamente no que diz respeito ao jornalismo, mas vou me concentrar aqui no uso que me parece apropriado e útil.
Nesses seis meses, usei parte dos aprendizados na especialização em Tecnologias Emergentes que estou cursando para testar o desenvolvimento de algumas soluções. Nesse aspecto, a experiência da Deborah Folloni, da Donos, foi fundamental, principalmente quando mostrou o valor de encontrar melhorias em soluções incompletas em vez de procurar um problema novo para resolver. Num mundo que passa como áudio de WhatsApp acelerado em 2x, essa dica funcionou muito bem. Vale a pena assistir aos vídeos dela no YouTube.
Nos aprofundamos em formas de resolver problemas do nosso dia a dia: seja de modo mais rápido, mais organizado, mais simples ou para obter um resultado mais robusto. Não importava muito o que estávamos melhorando, desde que melhorássemos algo no processo. Algumas soluções só usaram IA na codificação, não na entrega final. Mas há um “guard-rail” de aço que usamos: se tem IA, nada pode ser aplicado sem supervisão/aprovação do jornalista.
Com a entrada do vibe coding, a questão não está mais no “como” desenvolver, mas no o quê construir. Como diz a Deborah, o risco é criar soluções maravilhosas que não servirão para nada porque não resolvem nada real. Hoje, ao listar o que colocamos em teste nos últimos meses, me surpreendi com o que já está prototipado e funcional (apesar do uso restrito).
Só de ferramentas identificadas pela redação de A Gazeta ES e CBN Vitória – e criadas também por jornalistas da nossa redação, principalmente as editoras Mikaella Campos e Adriana Rios – elaboramos:
- Um criador de noticiários para rádio com base em produções de outras plataformas do grupo;
- Um assistente para a área de vídeos que identifica trechos relevantes de sonoras e reportagens com base em transcrições;
- Um gerador de Stories totalmente customizável;
- Um criador e organizador de listas de distribuição para o WhatsApp;
- Um assistente treinado para encontrar lacunas (o quê, quem, onde, como e por quê) em textos jornalísticos;
- Um conversor de notícias em “notas peladas” no padrão de TV;
- Um gerador de Threads com escolha de tom e estilo;
- Um otimizador de títulos para SEO;
- Um assistente para sugestão de novas abordagens relevantes baseadas em tendências de busca sobre o tema;
- Um gerador de scrollytelling e templates especiais;
- Um gerador de gráficos interativos;
- Calculadoras para Imposto de Renda (regras atuais e novas);
- Um sistema de gestão de fluxo operacional multiplataforma;
- Um sistema de acompanhamento de desempenho e desenvolvimento de lideranças;
- O Anuário (anuariodigital.agazeta.com.br), agregador de informações estatísticas sobre o ES.
Com exceção do Anuário e das calculadoras, que estão disponíveis para o público, as demais iniciativas foram colocadas à disposição de pequenos grupos para teste de usabilidade, utilidade e eficácia. Até agora, todas aprovadas. Nada é complexo nessa lista, mas o primeiro passo não é sobre complexidade: é sobre a experiência de encontrar soluções e aplicá-las em curtíssimo tempo.
O próximo passo será submeter os códigos aos especialistas internos para avaliação de segurança e proteção antes de disponibilizá-los para todo o time. Esse deve ser o fluxo para as próximas soluções. Na Rede Gazeta, encontramos um time de Tecnologia muito entusiasmado e nada reativo – pelo contrário, incentivando, participando e acompanhando o desenvolvimento. Isso reflete a jornada de inovação implantada na empresa há alguns anos.
O trabalho com IA não é algo estanque. É uma jornada sem fim. No mundo corporativo, exigirá de todos nós “lentes adaptadas” para identificar aplicações possíveis em busca de melhoria. Isso é mais fácil quando as pessoas estão mergulhadas no processo e têm o mesmo objetivo.
Uma coisa é certa: aprender colocando em prática agrega muito mais valor. Quanto mais contexto e quanto mais refinada a ideia, melhor o resultado. É fundamental saber “entrevistar” nossos próprios processos para extrair respostas que clareiem o objetivo final. Com essas habilidades, o jornalista agrega muito mais valor e pode ser o protagonista de soluções para problemas históricos no processo editorial.
Imagem: Freepik, gerada por IA