A apropriação de conteúdo jornalístico por plataformas de inteligência artificial (IA) está transformando a indústria do jornalismo, e especialistas alertam para os riscos de perda de receita e diluição editorial. O tema foi o centro do debate “O Futuro do Negócio do Jornalismo” (vídeo completo aqui), realizado na terça-feira (30) no Insper, em São Paulo, que reuniu Luiz Frias, publisher da Folha de S.Paulo e presidente do Conselho de Administração do Grupo UOL, e Erick Bretas, CEO do jornal O Estado de S. Paulo. A mediação foi feita por André Lahoz Mendonça de Barros, diretor de Marketing e Conhecimento do Insper.

Frias destacou que plataformas como ChatGPT capturam conteúdos jornalísticos sem autorização. “Assim como o Google passou a escanear a internet inteira, a OpenAI não faz diferente. Agora a IA traz um texto final, mas o mecanismo é o mesmo, com a captura do jornalismo de qualidade sem direito autoral.”

Ele explicou que a Folha entrou com ação judicial contra a OpenAI em agosto, pedindo que a empresa pare de coletar e usar seus conteúdos sem pagamento. “É uma reivindicação legítima que essa apropriação seja remunerada. Não vamos morrer de tédio nos próximos anos, e acho que teremos uma solução comercial”, afirmou.

Frias, porém, reconheceu um lado positivo: a apropriação mostra que o jornalismo das publicações de prestígio ainda é relevante. “Estaria mais preocupado se os modelos não estivessem, de fato, roubando informações de Estadão, Folha, Valor.”

Assim como Frias, Bretas foi categórico ao falar sobre o uso de conteúdo jornalístico por IA. “O conteúdo está sendo roubado. O que acontece hoje é roubo”, afirmou, lembrando que, ao contrário dos EUA, a OpenAI não tem buscado acordos com veículos brasileiros.

Bretas reforçou que a presença em plataformas como Instagram e TikTok é obrigatória. “Um veículo perde o jogo por WO quando não está presente. A discussão não é estar ou não, é como estar.” Ele alertou que a circulação de conteúdos nas redes pode diluir a autoria jornalística, citando a reportagem do Estadão sobre o “caso das joias” de março de 2023.

Bretas destacou a criação de uma unidade de marketing de influência no Estadão, que gerou novas oportunidades de negócios, inclusive com clientes já existentes. Ele reforçou que veículos jornalísticos precisam de múltiplas linhas de receita.

Frias, por sua vez, reforçou a importância do pluralismo e apartidarismo na Folha, e explicou o perfil de seus assinantes: 70% a 80% fazem parte do grupo “core”, altamente fiéis; os demais, a “franja”, têm relação mais oscilante, como ocorreu após o Xandãogate, reportagens de 2024 sobre ações do ministro do STF Alexandre de Moraes fora do rito do tribunal.

O professor Guilherme Fowler apresentou estudo coordenado com Mathias Felipe de Lima Santos e Stefanie Carlan da Silveira, que analisou 76 artigos acadêmicos e identificou seis tendências: fragmentação do consumo, uso crescente de dados e IA, multiplicação de formatos digitais e integração entre jornalistas e profissionais de tecnologia. Concluíram que não existe modelo único de sucesso: “Organizações mais resilientes alinham proposta editorial à estrutura de financiamento, mantendo capacidade de adaptação e experimentação.”

No painel “Casos de sucesso no jornalismo digital brasileiro”, participaram Paula Miraglia, da Momentum-Journalism & Tech Task Force, Felipe Seligman (Jota) e Pedro Burgos, autor de “Conecte-se ao que Importa”. Miraglia defendeu maior engajamento das empresas jornalísticas em inovação; Burgos alertou para o fim do financiamento via big techs; Seligman destacou a importância de conhecer bem a comunidade de leitores.

O debate reforçou que o jornalismo enfrenta desafios simultâneos: proteger conteúdo, manter relevância editorial, diversificar receitas e inovar. Para Frias, Bretas e os demais participantes, a chave para a sobrevivência do setor é transformar esses desafios em oportunidades de renovação e aproximação com o público.

O evento encerrou a série “Como financiar o jornalismo de qualidade?”, promovida pelo Núcleo Celso Pinto de Jornalismo do Insper, voltada à discussão da sustentabilidade da imprensa diante da revolução digital, do impacto das redes sociais e do crescimento das tecnologias de IA.

Com informações da Folha de S.Paulo, Poder 360 e vídeo completo do evento organizado com IA

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