O ESTADO DE S.PAULO – 24/10/2018
Partes do corpo do jornalista assassinado Jamal Khashoggi teriam sido encontradas no jardim da residência oficial do cônsul saudita em Istambul, segundo noticiou ontem a TV britânica Sky News, citando duas fontes turcas ligadas à investigação. Elas disseram à emissora que o corpo do jornalista foi desmembrado e seu rosto, desfigurado.
A casa do cônsul fica a cerca de 500 metros do consulado. Na sexta-feira, a Arábia Saudita admitiu que o jornalista foi morto durante uma “briga” dentro de seu consulado em Istambul, no dia 2. No entanto, seu corpo ainda não foi encontrado. A versão da TV britânica contradiz a explicação dada por fontes oficiais sauditas de que o corpo foi enrolado em um tapete e entregue a um “colaborador”, encarregado de se desfazer dele.
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, foi o primeiro político a descrever ontem a morte de Khashoggi como um “assassinato”, acrescentando que ele foi “premeditado” e “planejado por dias”. Em um discurso no Parlamento, Erdogan exigiu que a Arábia Saudita faça justiça e puna os responsáveis. “Por que o corpo
de alguém que oficialmente está morto ainda não foi encontrado?”, questionou.
Em seu discurso, Erdogan pediu uma “comissão de investigação independente” sobre o caso e exigiu que os 18 sauditas suspeitos de envolvimento na morte de Khashoggi sejam julgados em Istambul. O presidente turco disse também que o sistema de vigilância por câmeras do consulado saudita foi desligado antes da morte do jornalista. “Antes, (os sauditas envolvidos) removeram o disco rígido do sistema”, afirmou. “Foi um assassinato político.”
Erdogan não mencionou o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, que alguns congressistas americanos suspeitam que tenha ordenado o crime, mas disse que a Turquia não finalizará sua investigação até todas as perguntas serem respondidas.
“Agências de inteligência e de segurança têm indícios mostrando que o assassinato foi planejado. Atribuir o caso a alguns membros da segurança e da inteligência saudita não basta para nós ou para a comunidade internacional.”
Khashoggi, colunista do Washington Post e crítico do príncipe herdeiro, que governa o reino de facto reino, desapareceu três semanas atrás depois de entrar no consulado saudita em Istambul para obter documentos para se casar. Autoridades turcas garantem que ele foi assassinado e esquartejado por agentes da Arábia Saudita dentro do prédio.
Fontes turcas afirmam que a polícia tem uma gravação de áudio que supostamente documenta o assassinato do jornalista, que tinha 59 anos. Erdogan não mencionou nenhuma gravação em seu discurso de ontem no Parlamento.
No início, Riad negou ter conhecimento do destino do jornalista, mas depois disse que ele morreu durante uma briga no consulado. Esta versão foi recebida com ceticismo por vários governos ocidentais, aumentando as tensões diplomáticas com o maior país exportador de petróleo do mundo.
Encontro. O rei saudita, Salman bin Abdul Aziz al-Saud, e o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, receberam ontem parentes do jornalista para dar pessoalmente as condolências. Entre eles, estava Salah, um dos filhos de Khashoggi. Testemunhas relataram um encontro frio entre os dois.
A monarquia saudita já havia enviado suas “condolências” à família no domingo. A agência Associated Press afirmou, no entanto, que Salah está proibido de viajar ao exterior desde o ano passado.