O GLOBO – 28/09/2018

Um beijo dado pelo presidente eleito do México, Andrés Manuel López Obrador, em uma repórter, abriu um debate no país sobre o como o político de esquerda trata as mulheres e os jornalistas. López Obrador visitava o estado da Baixa Califórnia quando Lorena García, do jornal “Mexicano”, de Tijuana, perguntou se era do seu interesse que seu partido, o Movimento de Regeneração Nacional, vencesse a eleição para o governo do estado no próximo ano. O presidente eleito parou, sorriu e beijou a repórter no rosto. Em seguida, seguiu para seu carro, sem responder à pergunta.

Para Lorena, o gesto foi uma falta de respeito. Ela esperava respostas e não um beijo, ao contrário de algumas eleitoras que o cercam em suas visitas.

—Sou uma profissional com 19 anos de carreira e jamais havia passado por isso. Se as (outras) mulheres queriam um beijo, é problema delas —disse a jornalista à Rádio Fórmula.

Esse é o segundo incidente do presidente eleito com jornalistas mulheres. Dias atrás, chamou várias repórteres de “coraçãozinho”, causando mal-estar. A jornalista Verónica Calderón escreveu no Twitter: “O mais grave é que não responde às perguntas, desqualifica a imprensa”.

—São atitudes que demonstram que ele não trata com seriedade os jornalistas e um comportamento típico de “vou calar as mulheres com elogios e beijos”. Obrador atua com modos típicos do macho —diz Tegina Tamés, diretora do Grupo de Informação em Escolha Reprodutiva.

Para Marta Lamas, acadêmica e figura destacada do feminismo mexicano, tais comportamentos devem ser interpretados em contexto.

—López Obrador é um homem mexicano de mais de 60 anos que vem de uma tradição que internalizou costumes galanteadores que hoje estão sendo questionados. É um descuido da sua parte não ser consciente disso —disse Lamas.