O GLOBO – 20/10/2018

ANDRÉA PACHÁ

 
A comunicação violenta própria das redes sociais transbordou do mundo virtual para as ruas, causando vítimas reais. Para que uma postagem repercuta, precisa de um confronto turbinado artificialmente, de mentiras fabricadas e de provocações que desestabilizam e estressam. Para discordar, usa-se a mesma linguagem e, a pretexto de sepultar o ódio, somos arrastados para dentro dele. O deslocamento do encontro pessoal para o ambiente inóspito das redes é parte desse intrincado problema. A liberdade para mentir e odiar, travestida em liberdade de opinião, foi assimilada como idioma invencível pelas informações e pelos fatos. Cada dia mais reativos, exaustos de raiva e indignação, atormentados pelo medo fabricado, o convívio cotidiano tornou-se insuportável. Nessa arena de acusações, importa menos saber quem deflagrou a guerra e mais procurar maneiras de sair desse pântano dicotômico e ignorante, onde se perde a capacidade de pensar criticamente. Ninguém mais aguenta tanto ódio.

Em outubro, segundo o Ministério de Direitos Humanos, foram seis violações a direitos registradas por dia, todas ligadas às eleições presidenciais. Fanatismo não tem dois lados. Apenas um: o da irracionalidade. É a esse lado que aderem aqueles que aceitam e banalizam com naturalidade a violência. Há criminosos que se sentem legitimados e autorizados a agredir, espancar, esfaquear, ameaçar e matar, contando com o silêncio da maioria.

Tratar na perspectiva binária o ódio que tomou conta do espaço político é aceitar que bárbaros tenham monopolizado tal espaço, e subjugado todos os cidadãos, obrigando-os a aderir à violência, transformando grupos sociais e familiares em praças de guerra, nas quais divergências são resolvidas pela força bruta. Nesse coro de todos contra todos e de desqualificação permanente, perde-se o respeito pela rede civilizatória construída ao longo dos séculos. Onde pouco se dialoga e muito se impõe pela força, ganha quem tiver mais musculatura para odiar.

Por isso é tão importante o termo assinado, na ABI, pelos candidatos à Presidência, com o compromisso moral de respeitarem a Constituição e os direitos fundamentais. Sei que há quem enxergue concessões mútuas e acordos como sintomas de fraqueza ou oportunismo, mas, aprendi com Amós Oz que compromisso é sinônimo de vida e que o oposto do compromisso não é integridade ou idealismo, mas extremismo e morte. Assim, mesmo constatando que pedir equilíbrio, na atual conjuntura, é quase ofensa pessoal, impossível não insistir em defender valores inegociáveis, que nos irmanam em humanidade e em buscar pactos possíveis para viver em um país mais ético e plural. O direito à esperança é um legado que a geração que lutou para poder votar deve aos mais jovens.

Não é a política a causa desse estado de coisas. É a falta dela. O vazio instalado pela ausência de debates e projetos substitui as ideias pela truculência, paralisa e leva ao desencanto. Violência é o fracasso da política. Política é diálogo e, sem a palavra, sem confiança, definhamos em liberdade. É importante a compreensão de que a maioria das pessoas pretende viver em um país melhor. No entanto, é essencial o entendimento de que, nas democracias, as divergências não são resolvidas pela força ou pelo silenciamento dos outros. Uma vez mais, Amós Oz ensina que “o sinal indicador do fanatismo não é o volume da sua voz, mas a atitude com as vozes dos outros”. Nós, que acreditamos que a vida é um fim em si mesma, que desejamos um futuro mais digno para todos, que compreendemos que a injustiça nasce da desigualdade, que afirmamos a liberdade como valor absoluto, e que não aceitamos, sob nenhuma perspectiva, que os fins justifiquem todos os meios, devemos voltar a nos comunicar com desejo de compreensão e resgate da confiança recíproca, escolhendo caminhos mais luminosos, blindados de ressentimentos ou ofensas. O que aduba e faz crescer o mal é o silêncio dos bons. Contra a violência só tem um lado: o da civilização.