O GLOBO – 09/10/2018

Na campanha do primeiro turno, o candidato Jair Bolsonaro (PSL) avançou o sinal ao colocar sob suspeita a urna eletrônica, excedeu-se ainda mais ao dizer que o único resultado que aceitaria seria a vitória. Por absurda, voltou atrás na declaração.

Vitorioso no domingo, chegando à frente de Fernando Haddad (PT), com quem disputará o segundo turno da eleição presidencial, Bolsonaro atribuiu a “problemas” no sistema de votação o fato de não haver vencido no primeiro turno. Mais uma vez, falou sem base em prova concreta.

O pior foi que, coincidência ou não, orquestrada ou não, surgiu uma onda, no decorrer do domingo, nas redes sociais, de supostas denúncias de fraudes em urnas. Como em casos clássicos de disseminação de fake news, relatos eram passados à frente

sem qualquer preocupação com checagem de sua veracidade.

Flávio, filho de Jair Bolsonaro, candidato ao Senado pelo Rio, eleito ontem, chegou a difundir pelo twitter um vídeo que teria sido feito em Minas, no qual alguém digitava o número 1 numa urna e aparecia Fernando Haddad, número 13, candidato do PT a presidente.

Um perito do TRE mineiro provou que se tratava de um vídeo falso. Ele havia sido editado, como demonstrou o Tribunal Regional por meio do YouTube. Flávio se desculpou, excluindo a publicação que fizera. Mas não deveria ter feito a divulgação, sem qualquer comprovação confiável de que houvera alguma falha efetiva ou um crime.

O caso é exemplar e serve de alerta para o segundo turno, que tende a ter uma campanha mais acirrada devido à radicalização do embate entre direita e esquerda. Com o agravante de

que tanto Bolsonaro e seu PSL quanto Haddad e seu PT demonstram habilidade no uso da internet para tentar desconstruir adversários.

Em entrevista no domingo, a presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Rosa Weber, admitiu dificuldade de a Justiça enfrentar este tipo de problema. E reafirmou a confiança no sistema eletrônico de votação.

De fato, em 22 anos de uso das urnas, o TSE nunca detectou qualquer invasão de hacker ou fraude em algum dos 461 mil pontos de votação existentes no país. E os partidos também podem fazer auditorias no sistema.

A segurança das urnas tem sido, portanto, apenas mais uma arma usada na luta política. Por isso mesmo, deve partir da população o cuidado na propagação de informações de fraudes. Na dúvida, que as autoridades sejam alertadas. Na polícia ou na Justiça Eleitoral.