O ESTADO DE S.PAULO – 11/10/2018
O jornal Washington Post informou ontem que o príncipe saudita, Mohamed bin Salman, ordenou uma operação para atrair o jornalista Jamal Khashoggi ao consulado em Istambul, prendê-lo e enviálo de volta à Arábia Saudita. As informações foram passadas por fontes de inteligência dos EUA, que teriam interceptado conversas sobre o plano.
Segundo o jornal americano, que cita uma fonte anônima, os funcionários sauditas queriam prender Khashoggi, “apesar de não estar claro se tinham intenção de interrogá-lo ou matálo”. O Post disse não saber se o governo americano alertou Khashoggi sobre o plano, apesar de o serviço de inteligência ter “a função de alertar” as pessoas que podem ser sequestradas, feridas ou mortas, segundo uma lei de 2015.
O jornalista se distanciou da monarquia saudita no ano passado, depois da ascensão do príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, e se exilou nos EUA, onde começou a escrever colunas com críticas ao reino. Ele disse a amigos que nos últimos quatro meses funcionários sauditas ligados ao príncipe lhe telefonaram oferecendo proteção e mesmo um cargo de alto nível no governo se ele retornasse à Arábia Saudita. No entanto, Khashoggi, não acreditou nas ofertas.
O jornalista desapareceu no dia 2 em Istambul, na Turquia, para onde viajou com o objetivo de se encontrar com sua noiva turca, Hatice Cengiz. Ele visitou o consulado saudita na cidade para obter documentos necessários para seu casamento.
Não há notícias de Khashoggi desde que ele entrou na representação diplomática saudita – sua noiva o aguardava do lado de fora do prédio e diz que ele nunca saiu. Isso fez com que surgissem várias especulações sobre o caso.
Ex-funcionários de inteligência dos EUA disseram, sob condição de anonimato, que os detalhes da operação – que envolveu duas equipes com 15 homensem dois aviões particulares que chegaram à Turquia e partiram em horários diferentes – têm sinais do que eles chamam de “rendição”, na qual alguém é removido de um país ilegalmente e levado para interrogatório em outro.
Em coluna publicada na edição de ontem do Washington Post, a noiva de Khashoggi afirma que pediu ao presidente americano, Donald Trump, e à primeira-dama, Melania Trump, que ajudem a descobrir o que aconteceu.
Trump disse ontem que seu governo manteve contatos ao mais alto nível com a Arábia Saudita sobre o jornalista desaparecido. “Estamos decepcionados com o que está ocorrendo. Não gostamos e queremos saber o que aconteceu”, afirmou. A Casa Branca disse que o assessor e genro de Trump, Jared Kushner, e o secretário de Segurança Nacional, John Bolton, falaram na terça-feira com o o príncipe saudita.
A Turquia, por sua vez, aumentou a pressão sobre a Arábia Saudita para que o paradeiro do jornalista seja esclarecido. O Ministério das Relações Exteriores turco anunciou, na terça-feira, que “o consulado será revistado no âmbito das investigações”, depois que o chefe da missão deu autorização, uma exigência obrigatória, pois as delegações diplomáticas são invioláveis, segundo a Convenção de Viena.
As acusações contra a Arábia Saudita pelo assassinato de um jornalista em seu próprio consulado em Istambul forçam Trump a assumir uma posição mais dura com um importante aliado regional.
Evidências. Ontem, uma TV turca exibiu imagens das câmeras de segurança que mostram o jornalista entrando no consulado às 13h14. Nas proximidades é possível observar uma caminhonete preta. As imagens seguintes mostram o veículo entrando no consulado. Após deixar o local às 15h08, a caminhonete seguiu, de acordo com a 24 TV, para a residência do cônsul, próxima à representação diplomática. O diretor de redação do jornal Aksam, Murat Kelkitlioglu, disse, ao apresentar as imagens, ter certeza de que o jornalista foi transportado neste veículo, vivo ou morto.