O GLOBO – 11/10/2018

Altos funcionários do governo turco concluíram que o jornalista saudita Jamal Khashoggi foi assassinado no Consulado da Arábia Saudita em Istambul por ordem do alto escalão da corte real do país, informou uma autoridade da Turquia ontem.

Segundo a fonte do governo de Ancara, foi montada uma complexa, mas rápida, operação na qual Khashoggi foi morto duas horas depois de entrar no consulado por uma equipe de agentes sauditas, que desmembraram seu corpo com uma serra para ossos levada ao prédio justamente para esse fim.

—Parece uma cena saída de ‘Pulp Fiction’ —disse a fonte.

Autoridades da Arábia Saudita, inclusive o príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, negaram as acusações, insistindo que o jornalistaconsulado logo após chegar. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, exigiu que os sauditas provem sua versão.

‘BATE-VOLTA’ DE AGENTES

Nos Estados Unidos, 22 senadores pediram que o país investigue o caso para determinar se sanções devem ser impostas à Arábia Saudita em decorrência de grave violação de direitos humanos pelo desaparecimento de Khashoggi.

Ainda não está claro como o governo turco chegou à conclusão de que o jornalista foi assassinado, masa afirmação de que o crime teria sido cometido pela realeza saudita vai certamente aumentara tensão entre os países. Os dois governos não conseguirão mais atribuir a terceiros a culpa pelo desaparecimento.

E as autoridades turcas só aumentam a confusão ao falarem apenas sob condição de anonimato, sem provas, de modo que outras versões não podem ser descartadas. Órgãos de imprensa pró-governo dizem que a polícia ainda investigava a possibilidade de sequestro de Khashoggi, e não assassinato.

Porém, tendo transcorrido mais de uma semana desde o desaparecimento, a probabilidade de que Khashoggi esteja vivo cai consideravelmente.

Segundo fontes das forças de segurança da Turquia, o assassinato foi ordenado pelo alto escalão saudita, já que somente as autoridades reais poderiam determinar uma operação de tal escala e complexidade.

Ainda segundo fontes anônimas, 15 agentes sauditas chegaram a Istambul num voo fretado no mesmo dia em que Khashoggi sumiu após entrar no consulado. Deixaram o país rapidamente, horas depois, e a Turquia já identificou as funções que exercem no governo saudita. Um deles era especialista em autópsias e supostamente ajudou a esquartejar o cadáver do jornalista.

Segundo outros dois funcionários de Ancara, os agentes sauditas chegaram a Istambul no dia 2 de outubro em jatos Gulfstream IV fretados num serviço frequentemente usado pela Arábia Saudita. Eram todos agentes de inteligência ou autoridades sauditas.

Um dos aviões aterrissou às 3h13m com nove passageiros, que se hospedaram em hotéis perto do consulado, tendo reservado quartos para três noites. Mas fizeram as malas no mesmo dia e decolaram de volt ano mesmo jato, às22h46m. O outro avião pousou às 17h15m com seis passageiros que foram direto para o consulado e rapidamente retornaram ao aeroporto, decolando às 18h20m, comes calano Cairo rumo a Ri ad.

Câmeras desegurança mostram que Khashoggi entrou no consulado por volta de 13h naquela tarde. Duas horas e meia depois, seis veículos com placas diplomáticas saíram do prédio, levando os sauditas.

Outros dois veículos, inclusive uma van preta com janelas escuras, foram do consulado até a residência do cônsul, a 180 metros dali. Suspeita-se que Khashoggi estava na van. Os empregados turcos da residência oficial tiveram uma folga inesperada naquele dia, disse o jornal “Sabah”, que publicou fotos dos agentes sauditas.

VÍDEO DO ASSASSINATO

Erdogan foi informado das conclusões oficiais no sábado e, em seguida, pediu a funcionários para relatara órgãos de imprensa, inclusive o “New York Times”, o assassinato. O presidente, porém, não acusou publicamente a Arábia Saudita pela morte.

Uma fonte revelou ao “Times” que a Inteligência turca obtivera um vídeo do assassinato, feito pelos próprios sauditas para provar o fato.

—Há um vídeo do momento do assassinato — disse Kemal Ozturk, colunista próximo a Erdogan e ex-chefe de uma agência semioficial.

Enquanto isso, a Arábia Sauditacontinua anegar qualquer conhecimento sobre o paradeiro de Khashoggi. Além dos EUA, a ONU e o Reino Unido vêm pressionando o governo saudita por esclarecimentos.