O ESTADO DE S.PAULO – 19/10/2018

A monarquia da Arábia Saudita planeja culpar o chefe da inteligência do reino, um oficial próximo ao príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, pela morte do jornalista Jamal Khashoggi, afirmou ontem o jornal ‘New York Times’. O presidente americano, Donald Trump, voltou a falar sobre o caso e disse acreditar que o jornalista, que desapareceu no dia 2, após entrar no consulado saudita em Istambul, está morto.

O plano de atribuir a culpa ao general Ahmed al-Assiri, um conselheiro do príncipe, seria um extraordinário reconhecimento da magnitude do impacto internacional negativo para o reino desde a morte de Khashoggi, que vivia nos EUA e era colaborador do jornal Washington Post.

Ontem, o presidente americano, que vinha defendendo Riad, disse que confia nos relatórios de inteligência dos EUA e de várias fontes que sugerem que alguém do alto escalão saudita autorizou o assassinato de Khashoggi.

Trump não chegou a dizer que o príncipe Salman foi o responsável, mas reconheceu que as alegações de que ele ordenou o assassinato levantaram questões profundas sobre a aliança americana com a Arábia Saudita e provocaram uma das mais sérias crises de política externa de sua presidência.

“Esse caso mexeu com a imaginação do mundo, infelizmente”, disse Trump a repórteres do New York Times, em uma rápida entrevista no Salão Oval. “Isso não é positivo. A menos que o milagre dos milagres aconteça, eu diria que ele está morto”, continuou Trump. “Isso se baseia em tudo – há (relatórios de) inteligência vindo de todos os lados.”

Pouco antes da declaração de Trump, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, cancelou sua participação em uma conferência de investidores em Riad nos dias 22 e 23, somando-se ao grupo de proeminentes investidores e executivos que boicotarão a reunião, que é conhecida como “Davos do Deserto”.

O anúncio é uma mudança significativa na posição do governo americano com relação ao caso, uma vez que, até então, a Casa Branca vinha negando qualquer intenção de encobrir Riad, mas ressaltava os interesses estratégicos que ligam os EUA aos sauditas, como a luta contra o terrorismo, a necessidade de conter a influência do Irã e os bilionários contratos de armas.

Ao culpar seu chefe de inteligência, Riad teria uma explicação plausível para o assassinato e ajudaria a afastar a responsabilidade do príncipe, que os americanos estão cada vez mais convencidos de que esteja por trás do desaparecimento.

Autoridades turcas disseram ter provas de que 15 agentes sauditas torturaram, assassinaram e esquartejaram Khashoggi no consulado. Após duas semanas de negativas e crescente pressão da Turquia e de Washington, a Arábia Saudita disse que conduziria a própria investigação para determinar quem era o responsável.

No entanto, antes mesmo da conclusão da investigação, os sauditas já apontam Assiri como culpado, de acordo com as três fontes familiarizadas com os planos ouvidas pelo New York Times. Pessoas próximas à Casa Branca já foram informadas e citaram o nome de Assiri.

Ainda assim, os EUA decidiram dar à Arábia Saudita mais alguns dias para explicar o desaparecimento do jornalista. Fontes ouvidas pelo NYT afirmam que o genro de Trump, Jared Kushner, tem pressionado o presidente a defender o príncipe, argumentando que a morte de Khashoggi “vai passar”, segundo ele, da mesma forma que passaram outros erros sauditas, como o sequestro do premiê do Líbano e o bombardeio contra um ônibus escolar no Iêmen, que matou 29 crianças.