O GLOBO – 04/08/2018

ROSANE SERRO

Quem é o dono das novas narrativas? A autoria perde a relevância? Ou as novas tecnologias oferecem a criadores a possibilidade de uma experiência mais coletiva sem perda do controle do conteúdo? Entre na discussão

Assim como acontece com o espectador, que teve o seu fluxo de recepção da mensagem alterado, o modo de produção de uma narrativa interativa e/ou imersiva também é modificado. Ele exige a participação de um designer de interface – que vai pensar os caminhos de interação do usuário com o conteúdo — e um programador, que avaliará os limites e as possibilidades tecnológicas envolvidas na solução. Eles são cocriadores da nova obra audiovisual, junto com o diretor.

Uma revolução no que diz respeito às técnicas do discurso narrativo do cinema e do audiovisual adotado desde o século passado? Uma separação clara entre o espectador à antiga, que permanece grudado na cadeira da sala do cinema e o contemporâneo, interessado em se jogar no mundo maravilhoso da realidade virtual? Para a documentarista Joana Nin —produtora-executiva e diretora do longa “Cativas – presas pelo coração” e do premiado curta “Visita íntima” — é preciso domar as expectativas. Esta nova maneira de se apresentar uma história, ela acredita, não vai exatamente reinventar o cinema.

—Vejo as narrativas interativas e imersivas como ferramentas, não como mudanças de paradigma. Elas não vão tomar o espaço do cinema documentário tradicional, por exemplo. Nada vai acabar —diz.

As pessoas não vão deixar de ver TV. A interatividade, frisa Joana, são mais uma ferramenta a se prestar atenção.

— É uma linguagem. “Valsa com Bashir” (2008) não deixa de ser um documentário só porque é inteiro feito em animação – afirma ela.

CINEMA NOVO, MAS NEM TANTO

Joana também não concorda com o conceito de cocriação nos documentários interativos. No seu entender, designers e programadores são profissionais a serviço do projeto, contratados para executar uma obra.

Sandra Gaudenzi, da Universidade de Westminster, que vem dar a oficina de projetos interativos e de transmídia no BUG Lab, vai além:

— Não vejo a tecnologia interativa como uma ferramenta, mas como um processoquetrazculturaestética e mudanças políticas. Ao participar ativamente, o usuário, o I- doc e o mundo são conectados a uma cor- rente de causa e efeito.

A ambição dos organizadores do BUG Lab, que irá reunir 50 obras representativas da produção nacional e mundial, é que estas questões ajudem a “fertilizar” as produções locais do gênero. O evento também vai contar com palestras, debates e oficinas, chamados de LabSonica Oi Futuro. Essas oficinas incluirão pesquisadores e realizadores bra- sileiros e também da New School (EUA) e das universidades de Westminster, Nova York ( NYU) e Quebec. A iniciativa é da BUG 404, a rede de pesquisadores formada em 2015, par- ceira do MIT Open Documentary Lab e responsável pela criação da primeira plataforma digital dedicada a mapear e apoiar o desenvolvimento de projetos narrativos interativos pro- duzidos no Brasil.

— Nossas narrativas interativas e imersivas não são exercícios puramente estéticos. Elas ultrapassam a inovação tecnológica e embutem um projeto de engajamento social. Estamos interessados em inspirar novos projetos. —diz o diretor André Paz.

Especialista em narrativas interativas, Paz divide a curadoria do evento com o catalão Arnau Gifreu Castells e com Julia Salles, produtora, diretora e pesquisadora do tema na Universidade do Quebec. O trio considera a produção brasileira ainda dispersa, carente de referências, incentivos e recursos financeiros. O que os BUGs esperam é que a interação com obras como “Do not track” desperte na audiência o desejo de atravessar a linha já tênue entre autor e espectador. Quem se atreve a entrar no jogo?