O GLOBO – 05/08/2018
BOLÍVAR TORRES
Qual é o real papel de quem reage e critica posts ofensivos nas redes sociais?
Ao tuitar uma piada de cunho racista durante a Copa do Mundo, o youtuber Júlio Cocielo ultrajou o público, que reagiu com críticas e posts indignados. Alvo da vez no nosso tribunal digital de todo dia, ele pediu desculpas, perdeu patrocinadores e… ganhou visibilidade. Muita gente que nunca havia ouvido falar nele passou a conhecêlo. O que tinha tudo para ser um revés na carreira de uma figura pública virou, de certa forma, uma espécie de recompensa. Desde que postou a infame piada, no dia 30 de junho, Cocielo angariou mais 250 mil assinantes para o seu canal no YouTube — e hoje ele tem, no total, cerca de 17 milhões de seguidores.
Imaginava-se que a reprovação a Cocielo iria inibir outros comentários racistas. Não foi o que aconteceu. Cerca de duas semanas depois, o humorista Rodrigo Fernandes fez uma piada de teor semelhante no Twitter, sobre o filho de Will Smith, Jaden. No mesmo dia, seu nome figurou na listadosassuntosmaiscomentados do país na rede social. Mais do que um erro moral ou de avaliação, seria essa uma estratégia consciente para ganhar atenção?
— Uma máxima é que não existe má publicidade, existe a publicidade que você tem — explica Gustavo Monteiro, consultor da PSBI/Levius, empresa de consultoria especializada em informação. — Primeiro você atrai visibilidade, mesmo que associada a alguma coisa negativa, e depois vai mudando essa imagem. E por fim ainda tem o recurso do pedido de desculpas, que gera ainda mais repercussão.
A estraté- gia maliciosa não seria usada apenas por influenciadores: virou recurso para artistas, marcas e políticos desesperados por buzz.
—Hojeapessoa, sejaartista ou político, tornou-se uma marca, e planeja a comunicação com o público como tal — diz Ana Erthal, responsável pela pesquisa de Digital Brand Experience da ESPM-Rio.
O cenário de polarização favorece comentários extremos e ultrajantes, que despertam engajamentos exaltados tanto dos que os denunciam quanto dos que os defendem. E aí entram em cena os algoritmos. No Twitter, quanto mais se fala em um assunto, mesmo que negativamente, mais ele aparece nos trending topics. Ao perceber que o usuário está criticando um conteúdo, o Facebook destaca este mesmo conteúdo na timeline de outros usuários com posicionamentos antagônicos. Sem saber, o usuário pode estar ajudando a promover e difundir tudo aquilo de que discorda.
— Na ânsia de se posicionar, as pessoas estão dando mais audiência para aquele tópico. E elas não têm noção disso—dizLucianaBazanella, professora da FGV e palestrantenasáreasdemarketing digital e gestão de mídias sociais. — Alguns profissionaisjásacaramcomofunc
FORÇARAREPERCUSSÃO
Fundador do Monitor do Debate Político, uma ferramenta que acompanha a postagem e o compartilhamento de conteúdos em veículos jornalísticos, Pablo Ortellado acredita que a tática do “fale mal, mas fale de mim” ganhou novos instrumentos com a web.
—É uma estratégia de inserção que sempre foi usada, não é específica das redes — lembra ele. — Mas se na mídia de massaseutinhaqueatrairacobertu
Na seara política, ele cita o caso do candidato à presidência Jair Bolsonaro, que apesar — ou por causa — de uma criticada participação no programa “Roda Viva” manteve-se no centro dos debates. Segundo levantamento da PSBI/Levius, o presidenciável chegou a 60% de rejeição no Twitter após o programa. Mas, no cenário de hoje, isso não seria necessariamente um problema para ele. O que gera uma dificuldade para opositores.
— Se sou seguidor de um candidato e interajo com o seu adversário, fica o dilema: como rebater o seu discurso sem amplificá-lo? — diz Ortellado.
Emtemposdepolarização absoluta e algoritmos pouco transparentes, está cada vez mais difícil saber a maneira certa de se indignar frente a um tweet, um vídeo ou post inadequados.
—Tudo depende de qual é o seu objetivo — diz André Miceli, coordenadordoMBAem Marketing Digital da Fundação Getulio Vargas. — Se estivermos falando em relação a umassuntoquenãoqueremos que apareça, o mais simples é denunciar o conteúdo para a plataforma, sem responder ou compartilhar. Nesse ambiente, a falta de volume na voz é a pior punição para quem quer
aparecer.